sexta-feira, 13 de maio de 2022

Gêneros FICÇÃO CIENTÍFICA e DISTOPIA: A Máquina do Tempo, de H. G. Wells

A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells

Esta obra literária escrita pelo inglês H. G. Wells, surge, coincidentemente, na mesma época em que os irmãos Lumière davam os primeiros passos na França com sua invenção genial, o cinema. Estávamos, então, no final do século XIX, num momento em que se apresentava um panorama histórico no qual se percebia o desejo dos seres humanos por poder manipular o Tempo para frente e para trás, aumentando ou diminuindo sua velocidade; enfim, manipulá-lo a seu bel prazer.

“(...) A história da ficção científica considera ao livro de Wells um marco pelo fato de pela primeira vez a viagem no Tempo deixar de depender dos recursos fantasistas clássicos (um sonho, uma visão, uma poção mágica, uma hibernação prolongada, um transporte involuntário por meios desconhecidos para instituir, modernistamente, a possibilidade de um mecanismo controlado pelo passageiro, que pode assim deslocar-se na direção que quiser, parando onde bem entender, e retornando ao ponto de partida quando lhe for conveniente. Um automóvel para viajar no Tempo, em outras palavras. Relendo a obra, no entanto, constatamos que seu caráter inovador repousa menos no hardware (a máquina em si, cujo modo de funcionamento não é explicado em momento algum) do que no software: a cuidadosa (e em certa medida falaciosa) argumentação do Viajante no Tempo sobre as quatro dimensões e a possibilidade de alguém se deslocar na quarta com a mesma facilidade com que se desloca nas outra três. (...)”

“(...) A literatura utópica do século XIX geralmente projetava um indivíduo numa sociedade futura ou distante, e lhe apresentava um habitante local para servir-lhe de guia. Este recurso conferia à obra um caráter didático, explicativo. A aventura que havia era uma aventura peripatética, uma aula de História ao longo de um passeio ilustrativo. Wells despreza esse recurso e joga seu Viajante num futuro desconhecido e cheio de ameaças, entregue aos seus próprios recursos e contando apenas consigo mesmo para interpretar o que vê. Com A Máquina do Tempo, a literatura utópica e futurista foi se transferindo do âmbito dos diálogos filosóficos para o dos romances de aventuras. (...)”

(Fonte: TAVARES, Bráulio. Prefácio de “A Máquina do Tempo”, de H. G. Wells. Editora Alfaguara, 2010, Rio de Janeiro)

RESENHAS SOBRE A OBRA:

(...)
Não sei vocês, mas eu gosto muito de ler livros antigos e perceber coisas desse tipo: H. G. Wells colocou o espaço quadridimensional (comprimento, largura, altura e tempo) em sua história, quando Einstein ainda era adolescente. Somente dez anos depois da publicação de A Máquina do Tempo, o físico publicou seus trabalhos sobre a teoria da relatividade, em que é utilizada a ideia das quatro dimensões na geometria do espaço-tempo, substituindo os dois conceitos utilizados de forma independente na teoria de Newton.
(...)

(Fonte: MANTOVANI, Michelle. A Máquina do Tempo – Resenha. Disponível em: deviante.com.br, em 25/09/2020 - https://bit.ly/3FI3j8k)

A Máquina do Tempo foi a primeira obra de ficção científica a retratar a viagem do tempo na ficção. Depois de tantas obras já utilizarem este recurso na narrativa, saiba qual a utilidade de conhecer o livro pioneiro nesta resenha. (...)
(Fonte: ARAUJO, Diego. Resenha: "A Máquina do Tempo" de H.G. Wells. Disponível em: ficcoeshumanas.com.br, https://bit.ly/3waJHH7) 


VÍDEO-RESENHAS SOBRE A OBRA:

A MÁQUINA DO TEMPO do H. G. WELLS: RESENHA E EXPLICAÇÃO | Darwinismo político e social
(Fonte: canal Projeto Nocente / YouTube / https://bit.ly/3l64qW0)

A MÁQUINA DO TEMPO, de H. G. WELLS
(Fonte: canal Abstração Coletiva / YouTube / https://bit.ly/3Mcwbbw)

A MÁQUINA DO TEMPO, de H. G. WELLS, um precursor do gênero
(Fonte: canal Duda Menezes / YouTube / https://bit.ly/3LaxYw8)

QUEM FOI H. G. WELLS?

Herbert George Wells
, mais conhecido como H. G. Wells, nasceu em um distrito da grande Londres, a 21 de setembro de 1866.
Na juventude foi
aprendiz de negociante de panos, porém esta experiência só foi bem-sucedida no sentido de colher experiências para uma de suas futuras obras.
Em 1883 começou a lecionar na
Midhurst Grammar School, até conseguir uma bolsa para estudar biologia com T. H. Huxley, na Escola Normal de Ciências em Londres.
Wells tornou-se conhecido por seus
“romances de ficção”, carregados de suas visões políticas e que antecipavam inúmeras situações vividas pela sociedade posteriormente.
Mesmo escrevendo sobre outros tempos, lugares, e até mesmo formas de vida, jamais deixou de se referir à própria realidade. Escreveu sobre luta de classes, questionou a ética da ciência, e anteviu bombardeios.
Em seus romances que não possuíam cunho científico, menos conhecidos pelo grande público, fazia
críticas sociais ainda mais consistentes. Os costumes, dilemas e a ruína da baixa burguesia vitoriana, por exemplo, estiveram em várias de suas obras. Chegou a escrever, até mesmo, sobre os direitos das mulheres.
Suas narrativas abordavam, com fascínio e desconfiança, a aplicação de
tecnologias, sejam elas do futuro real ou ficcional. Alguns estudiosos atribuem a qualidade científica de suas ficções aos oito anos em que foi professor de ciências e zoologia.
Sua carreira de escritor teve início com artigos científicos, que na realidade não alcançaram tanta repercussão.
Fez parte da
Sociedade Fabiana, que tinha como propósito transformar, de forma gradual, a sociedade da Inglaterra, orientada pelo socialismo. Passa, então, a enxergar o nacionalismo como causa principal das catástrofes que acometiam a humanidade. Acaba por deixar a sociedade, e passa a dedicar-se a ideia de um Estado Universal, descrito em uma de suas obras.
Com o avançar da idade, seu
pessimismo em relação ao futuro da humanidade foi aumentando, e esse sentimento pode ser claramente identificado em seu último livro, onde mais do que contar uma história, Wells pregava acontecimentos posteriores. Não mais utilizava de sua inicial capacidade inventiva, apenas fazia constatações sobre um futuro não muito distante.
H. G. Wells faleceu no dia 13 de agosto de 1946, em Londres.
 
Principais obras:
A Guerra dos Mundos
A Máquina do Tempo
A Porta no Muro
Kipps
Ann Veronica

(Fonte: RAMOS, Thaciane Rollemberg. H. G. Wells. Disponível em infoescola.com / https://bit.ly/3xO5YKa)

quinta-feira, 5 de maio de 2022

DISTOPIA - QUE GÊNERO LITERÁRIO É ESSE?

Gênero literário: Distopia

A distopia é uma temática presente principalmente na filosofia, no cinema e na literatura que, ao lado da utopia, discute a natureza humana insatisfeita e sempre em busca de um lugar melhor.

Baseando-se nas estruturas sociais, a utopia apresenta uma civilização ideal, perfeita (e, consequentemente, inalcançável). Por sua vez, a distopia mostra e reforça o lado negativo desse processo, tanto com os excluídos do “paraíso” quanto com o processo opressor, totalitário e autoritário adotado para alcançar e/ou manter esse modelo social.

Nas distopias, as relações de poder são sempre de cima para baixo. Por trás da aparência de sociedade organizada e feliz existe a manipulação, a alienação e a censura, seja pelos órgãos do Estado ou pelas corporações. Qualquer discordância é sumariamente destruída, tanto pela tortura quanto pela morte. A individualidade não existe e as pessoas são consideradas apenas uma peça dentro de uma estrutura maior.

Segundo a teoria literária, o tema tem suas raízes em A Utopia (1516), de Thomas Morus. A obra narra a história de uma sociedade que, numa ilha, aboliu a propriedade privada e a intolerância religiosa e estabeleceu uma ordem justa e igualitária. Apesar disso, algumas considerações remontam a discussão ao ano de 380 a.C., quando Platão discutia a criação de uma sociedade ideal em A República, sem utilizar a palavra utopia.

No caso da distopia, o primeiro romance foi Nós, escrito pelo russo Ievguêni Zamiátin no começo da década de 1920. Censurado, o autor apresentou um governo totalitário sob o nome de Estado Único que privou a população de direitos fundamentais, como livre-arbítrio e a imaginação, para melhorar o bem-estar da sociedade. O mundo, completamente mecanizado, lógico e controlado pelo Estado, serviu como inspiração para as distopias mais famosas, como 1984 (1949) e o seu Grande Irmão, Admirável Mundo Novo (1932) e Fahrenheit 451 (1953). Essas influências são sentidas até hoje em livros como Jogos Vorazes (2008).

Estrutura de uma distopia na literatura:

O lugar utópico, que guia a história dos livros, pode surgir de dois caminhos: um passado mítico, romantizado e repleto de abundância ou um futuro modificado por revoluções sociais e tecnológicas. No texto distópico, as organizações e o Estado são corruptos, as tecnologias ão utilizadas como ferramentas de controle e o discurso da obra é, geralmente, pessimista.

Nesse contexto, é possível destacar alguns elementos recorrentes nessas obras. O primeiro deles é o herói deslocado, que passa por uma tomada de consciência e se solta da estrutura social, que conta com o auxílio de alguns ajudantes. Além disso, o cenário autoritário é frequentemente o antagonista da aventura, e tem apoio de instituições e agentes, ligados a uma tecnologia cerebral e totalitária. Esses elementos acentuam a miudeza do protagonista em relação ao sistema e a falta da individualidade.

Os elementos se estruturam numa narrativa composta pela introdução, onde a relação do protagonista com o mundo é descrita; a tomada de consciência vem em seguida, quando o herói percebe problemas no mundo a sua volta e, em geral, descobre que não está sozinho; Em seguida, temos a luta contra o sistema e seu respectivo desfecho – que é, em sua maioria, o exílio ou a morte do protagonista e seus ajudantes.

Algumas distopias brasileiras:

1 - Não Verás País Nenhum, de Ignácio Loyola de Brandão¹: Provavelmente a mais lembrada das distopias brasileiras, o livro é de uma aridez e de uma opressão que impactam seus leitores. No universo da trama um país entregue às multinacionais e desertificado, sem água e sem alimento. Para comandar isso tudo a hierarquia onipresente e invisível do Estado, que no caso é O Esquema, movido por corrupção e jeitinhos. Uma leitura indispensável.

2 - Admirável Brasil Novo, de Ruy Tapioca: O romance se ambienta num Brasil de 2045 e segundo Cristovão Tezza "é a representação de um imaginário poderoso sobre o Brasil, que não pode ser desprezado. Nessa imagem, o que assusta de fato não são os engarrafamentos gigantescos, a pestilência do ar ou a vulgaridade da televisão; o que realmente mete medo é a idéia de que a democracia é um regime fracassado e incapaz, de que "os brasileiros" (com os quais não temos nada a ver) votam mal, e que "nós" não dispomos de meios de salvá-los senão os imaginados há 50 anos, para, então, começar de novo".

3 - Cyber Brasiliana, de Richard Diegues: Nesta obra de 2010 e de sucesso entre geeks e nerds temos uma distopia que inverte o eixo de poder do mundo com relevância do Brasil, mas que acima de tudo penetra o universo cyberpunk com seu Hipermundo possibilitando uma realidade alternativa.

4 - Sombras de Reis Barbudos, de Jose J. Veiga: É provável que seja quase um exagero colocá-la aqui por causa de um único fator: a obra não olha para o futuro, como em geral das distopias, contudo neste romance de Veiga as estruturas de poder são intrinsecamente as estruturas de poder das distopias, só que aqui ao invés de flertar com a ficção científica o autor parte para o realismo fantástico e o insólito.

5 - Rio - Zona de Guerra, de Leo Lopes: A obra traz um elemento recorrente à realidade carioca e que também é abordada no filme Uma História de Amor e Fúria em que o controle se dá por megacorporações criadas por milícias.

(Fonte: Editora Bookmarks - Equipe de Marketing, 17/03/2020. Disponível em: https://bit.ly/3LKxaPS)

Notas:
1. Ignácio de Loyola Brandão é um escritor araraquarense, consagrado e reconhecido em âmbito nacional e internacional.

TÍTULOS DO GÊNERO DISTOPIA PRESENTES NO ACERVO DE NOSSA SALA DE LEITURA (até o momento):

  • Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift (02 exemplares)
  • Viagem ao Centro da Terra (1864), de Júlio Verne (01 exemplar)
  • Vinte Mil Léguas Submarinas (1870), de Júlio Verne (01 exemplar)
  • A Ilha Misteriosa (1875), de Júlio Verne (01 exemplar)
  • A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells (44 exemplares)
  • Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley (16 exemplares)
  • A Revolução dos Bichos (1945), de George Orwell (03 exemplares)
  • Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury (04 exemplares)

  • Uma Dobra no Tempo (1962), Madeleine L’Engle (trilogia)
                 Livro 1: Uma Dobra No Tempo (01 exemplar)    
               Livro 2: Um Vento À Porta (01 exemplar)
             
      Livro 3: Um Planeta Em Seu Giro Veloz (01 exemplar)

  • Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (1968), de Philip K. Dick, também conhecido como Blade Runner - O Caçador de Andróides, nome dado à adaptação da obra para o cinema (16 exemplares)
  • O Conto da Aia (1985), Margaret Atwood (01 exemplar)
  • Trilogia da Saga "Divergente" (2011-2013), Veronica Roth

              Livro 1: Divergente (16 exemplares)
              Livro 1: Insurgente (16 exemplares)
              Livro 3: Convergente (16 exemplares)

  • Quatro (2014) - histórias da série Divergente, Veronica Roth (01 exemplar) 

Outras artigos sobre o gênero literário DISTOPIA

- MELO, Caroline. Vivendo um gênero literário: distopia. Disponível em: labdicasjornalismo.com,10/07/2020 (https://bit.ly/3MJSwgk)

- LIMA, Helder. Futuro sem perspectiva? Distopia atual é achar que o autoritarismo é normal, diz escritor de ficção científica. Disponível em: redebrasilatual.com.br, 22/10/2017 (https://bit.ly/3yehzEg)
Alexey Dodsworth, pesquisador do transumanismo, avalia o momento presente no Brasil e no mundo frente às obras clássicas do gênero que projetavam uma vida de regressões e opressão

- COLETTO, Sérgio. A Literatura da Distopia. Disponível em: obviousmag.org/artes e ideias (https://bit.ly/3MRxRXH)
Foram necessários romances que mostravam bárbaros regimes totalitários, fábulas com porcos, gangues violentas, controle biológico, uso indiscriminado de drogas e queima de livros para finalmente entendermos como era impraticável o modelo de utopia construído há alguns séculos atrás. Por isso são tão importantes os autores de "1984", "Laranja Mecânica", "Admirável Mundo Novo" e "Farenheit 451".

Vídeo-resenhas sobre o gênero literário DISTOPIA 

Qual a diferença: distopia x ficção científica

(Fonte: canal Bruna Miranda - YouTube / https://bit.ly/3OYA0mk)

O que é distopia?

(Fonte: canal Mundos Possíveis - YouTube / https://bit.ly/3OWiYFs)

Para você escrever Utopia, Distopia, Eutopia e Antiutopia

(Fonte: canal fantasticursos - YouTube / https://bit.ly/3OYb3Yc)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

O que é um 'SARAU"?

O Que É Um Sarau
O sarau é um evento cultural ou musical onde as pessoas se encontram para se manifestarem artisticamente. Nele pode haver dança, música, récitas de poesias, leituras de trechos de livros etc. Entretanto, o mais importante é o clima de descontração presente nesses encontros, o que os torna ainda mais especiais.


Veja como é simples organizar um sarau
É uma boa ideia que se forme uma comissão para organizar o evento. Deve ser um grupo entrosado no qual as atividades possam ser divididas. Essa comissão poderá fazer a relação dos alunos e professores participantes e o que cada pessoa ou grupo fará artisticamente (declamar, tocar, cantar, dançar etc.) Por fim, é preciso definir o horário de início e a duração do evento para poder montar um cronograma informativo mais preciso para os convidados. 

Espaço e tempo
Dependendo do tamanho do evento é preciso que se escolha um local amplo onde as pessoas possam circular no dia e horário do evento. Não se esqueça da acessibilidade para os convidados. Além disso pense em uma decoração temática e atrativa, e, também, se existe a possibilidade de servir petiscos e bebidas para os convidados e participantes. Lembrando que tudo deve estar relacionado ao objetivo do sarau, o que ele pretende promover.
Busque parceiros que possam auxiliar tanto com incentivo financeiros quanto emprestando equipamentos que serão necessários para a realização do evento.
 
Diferencial

Convidar aqueles alunos, professores e funcionários que já exerçam alguma atividade artística para se apresentarem ajuda a abrilhantar o evento. Organize momentos de confraternização com os convidados, mesmo que sejam poucos os mobilizados, busque o máximo de interação e procure entreter os convidados durante o evento. Organize um espaço de interação onde os participantes que apenas estão visitando o evento possam contribuir de alguma forma com o evento, seja com uma poesia própria ou de algum autor famoso

Divulgação
Mobilize a escola, crie convites personalizados e divulgue para todos. Espalhe cartazes divulgando o evento, horário de realização etc. Lembre-se que pode contar coma a internet na divulgação do evento através dos grupos, nas mídias sociais.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Livro da Semana: CAROLINA (HQ), de Silene Barbosa e João Pinheiro

“Com os dedos calejados, segura tocos de lápis como e fossem facas e escreve com vigor, letras de sangue e beleza.”

A capa da HQ Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiros, mostra a escritora coberta por letras. Intencional ou não, a bela edição da Veneta, possibilita um prelúdio do que é a história da escritora que melhor descreveu a favela. Carolina Maria de Jesus escreveu “Quarto de Despejo” contando a vida na favela e colocando seus pensamentos no papel. Esses pensamento foram descobertos pelo jornalista Audálio Dantas, que na época apurava uma matéria para o jornal Folha da Noite (hoje Folha de São Paulo) e deu visibilidade a obra de Carolina, o que resultou na publicação do livro e popularização da escritora.

A HQ reúne o apurado trabalho de pesquisa de Sirlene e o desenho sensível de João. Com ampla referência bibliográfica, Sirlene joga luz sobre a história da escritora, que embora tenha se tornado famosa na época e traduções em diversos países, sempre esteve em um espaço marginalizado da literatura nacional. Negra, pobre e favelada, Carolina usava suas letras para contar a Canindé, muitas vezes expondo os malfeitos de seus vizinhos e as confusões que geravam. Era rejeitada na favela e fora dela e cinquenta anos depois, ainda não tem sua obra valorizada e alçada aos clássicos da literatura.

Se por um lado, a preocupação em apresentar uma biografia precisa é louvável, por outro, a HQ transmite a sensação de correr em alguns trechos e se alongar desnecessariamente em outros. É apenas um pequeno incômodo, que não chega a prejudicar realmente o fluxo da leitura. A HQ é muito coerente e apresenta uma um retrato da escritora até encontrar o sucesso e talvez seja justamente a coerência e linearidade que provoque certo desconforto. Carolina é uma HQ linda, inteligente e necessária, mas não se arrisca muito dentro do quadrinho. Entrega o que promete e arte é belíssima, mas embora o tema seja inovador, caberia mais ousadia em sua apresentação.


Resgatar artistas que desafiem uma norma de intelectualidade branca e elite é valorizar a diversidade de narrativas e possibilidades que um país plural como o nosso abriga. Em tempos de discussão sobre os direitos das minorias políticas, precisamos questionar o porquê de não lermos Carolina na escola, o porquê de não conhecermos sua obra em profundidade.

(Fonte: FARIAS, Meire. 1Resenha Por Dia: Carolina (Sirlene Barbosa e João Pinheiros). Disponível em: armazemdacultura.wordpress.com / https://bit.ly/31JsEzp)

OUTRAS RESENHAS SOBRE ESTA OBRA

- FONTANA, Daniel. Carolina - Superação Verídica! Disponível em: formigaeletrica.com.br / https://bit.ly/3ycucOb

- PEDROSO, Gustavo. Resenha: Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro. Disponível em: gibiteriadiagonal.wordpress.com / https://bit.ly/30bZRmn

- SIMÕES, Isabelle. Carolina: literatura, classe, gênero e raça. Disponível em: deliriumnerd.com / https://bit.ly/3oFi7xH 

VÍDEO-RESENHA SOBRE ESTA OBRA

Mais Carolina: Diário de Bitita e a HQ Carolina
(Fonte: canal Aline Aimee - YouTube / https://bit.ly/3pG9yC3)

QUEM FOI CAROLINA DE JESUS?

(Foto: Acervo Nacional)
Carolina Maria de Jesus é uma das primeiras autoras negras publicadas no Brasil e teve sua vida atravessada pela miséria e pela fome. Favelada e catadora de papel, narrou em seus escritos a vida dura que teve desde a infância.

Além de instrumento de denúncia social produzido por alguém que efetivamente vivia nessas condições de vida devastadoras, suas mais de cinco mil páginas manuscritas, entre romances, contos, crônicas, poemas, peças de teatro, canções e textos de gênero híbrido, dotadas de estilo próprio, confrontam os ditames da tradição literária e da norma padrão culta da língua. Carolina foi publicada em mais de 40 países e traduzida para 14 línguas.

Natural da cidade de Sacramento, sudeste de Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914. De origem muito humilde, era neta de escravos e uma entre os oito filhos de uma lavadeira analfabeta. Desde criança manifestava o desejo intenso de aprender a ler e a curiosidade incessante sobre o mundo — tudo perguntava, tudo queria saber.

Incentivada por uma das freguesas de sua mãe, Carolina ingressa aos sete anos no Colégio Alan Kardec. Cursa a primeira e a segunda séries do primário, mas teve que deixar a escola, pois a mãe não conseguia mais manter a si e aos filhos na cidade e resolveu mudar-se para a roça. Moraram ainda em diversos outros lugares, como Ubatuba, Franca e Ribeirão Preto, sempre lidando com dificuldades. Passaram fome, frio, não tinham onde morar.

Carolina chegou a São Paulo em 1947. Sua rebeldia natural fazia com que não se adaptasse ao trabalho de empregada doméstica. No ano seguinte, engravidou de um português, que a abandonou. Na época, ninguém dava emprego para mãe solteira e Carolina foi morar na rua. Foi então que chegou à favela do Canindé: o governador paulista Adhermar de Barros mandara recolher todos os mendigos pelas ruas e despejá-los num grande terreno à margem esquerda do rio Tietê.

Construiu seu próprio barraco, onde nasceram seus três filhos, João José (1948), José Carlos (1950) e Vera Eunice (1953), cada um de um relacionamento diferente. Carolina dizia que homem algum ia entender sua necessidade literária, pois estava sempre às voltas com os livros, os lápis, os cadernos, onde registrava tudo o que lhe cercava.

Foi no Canindé que seu talento foi descoberto: um jornalista estava no local, em busca de material para uma reportagem sobre a favela, que crescia acentuadamente. Viu Carolina ralhando com um bando de marmanjos que não queriam desocupar o parquinho, ameaçando colocar o nome deles em seu livro. O jornalista quis saber que livro era esse e percebeu ali o talento da escritora. Publicou algum dos escritos no jornal e reuniu os outros em Quarto de despejo, lançado em 1960.

A partir de então, Carolina conheceu o sucesso e a ascensão social, sendo convidada para diversas entrevistas e viagens, e virou assunto entre escritores de renome, como Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira. Lançou mais dois livros e gravou um LP com canções de sua autoria. Foi traduzida para diversos idiomas e conhecida em inúmeros países. Saiu finalmente da favela e mudou-se para uma casa no bairro de Santana.

Entretanto o lampejo da fama durou pouco: em suas próprias palavras, Carolina tinha virado um artigo de consumo, alguém que é vista com curiosidade, mas descartada depois que a moda passa. Teve de voltar à condição de catadora de papel para garantir sua sobrevivência.

Morte

Carolina Maria de Jesus morreu no dia 13 de fevereiro de 1977, com 63 anos, cansada, asmática, esquecida pelo mercado editorial, morando num sítio em Parelheiros. Os livros publicados depois de Quarto de despejo não tiveram o sucesso do primeiro. O descaso fez com que a autora fosse preterida pelo cânone literário, mas a magnitude de seu trabalho criativo ressurge, nos últimos anos, devolvendo-lhe o epíteto de grande escritora que ela sempre soube ser seu.

Obras publicadas em vida

Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960)

Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada (1961)

Pedaços da fome (1963)

Provérbios (1965)

Publicações póstumas

Diário de Bitita (1986)

Meu estranho diário (1996)

Antologia pessoal (1996)

Onde estaes felicidade? (2014)

Autora prolífica de diversos gêneros textuais, Carolina morreu deixando muitos manuscritos que, até os dias de hoje, não foram publicados.

(Foto: Acervo Nacional)
Quarto de despejo: diário de uma favelada

Livro de estreia da autora, foi o que lhe rendeu a fama e a importância em nossa literatura. Escrito em papéis que coletava dos lixos e das ruas da metrópole, separados entre os outros materiais recicláveis que garantiam o seu sustento, Quarto de despejo é um compilado dos diários da vida de Carolina, e reverbera em suas páginas a dureza da fome, o cheiro do lixo, a existência de tantos brasileiros que vivem em meio à miséria e aos dejetos:

“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludo, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.” (Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo, 1960, p. 37)

Ao quarto de despejo destina-se aquilo que não se quer mais, aquilo que se afasta dos olhos, que é descartável, indesejado. O livro revela ao leitor as condições degradantes de quem vive das sobras, num contexto de extrema pobreza na favela do Canindé, onde humanos conviviam com ratos e abutres, e o rio Tietê, muito próximo, tantas vezes inundava os barracos com lixo e dejetos.

A sujeira é um tema constante, junto com a pobreza, a fome e o racismo: sem dinheiro nem para comprar sabão, Carolina expõe o preconceito existente dentro da favela — um dos moradores chama-a de “preta imunda e vagabunda” —, desfazendo, entre muitos outros exemplos, o estereótipo do favelado unido e fraterno.

Ela mesma sentia-se superior por guardar entre seus pertences livros como Os miseráveis, de Victor Hugo, Éramos seis, de Leandro Dupré, e Primaveras, de Casimiro de Abreu, e acreditava vingar-se de seus vizinhos: porque era preta, favelada e miserável, mas escritora.

 

(Foto: Acervo Nacional)
“Eu sou negra, a fome é amarela e dói muito. [...] E assim no dia 13 de maio eu lutava contra a escravatura atual — a fome!”, diz a autora. A luta constante para conseguir dar de comer aos filhos e alimentar-se repete-se incessantemente, dividindo espaço com os acontecimentos da favela: a prostituição, os efeitos destruidores do álcool, a constante violência de homens que espancam suas esposas e o quanto essas mesmas esposas espancadas criticavam Carolina por esta não querer casar-se.

Quarto de despejo tornou-se um best seller, ultrapassando a venda de 10 mil exemplares em uma semana, tendo oito edições no ano de seu lançamento. Foi traduzido para 16 idiomas, publicado em 46 países e é um importante meio de denúncia de um Brasil extremamente desigual, uma tentativa literária de escapar a condições de vida sem o mínimo necessário para a sobrevivência, retrato lúcido de um país racista, esfomeado e sombrio, que não aparecia na grande mídia.

(Fonte: BRANDINO, Luiza. Carolina Maria de Jesus. Disponível em: mundoeducacao.uol.com.br / https://bit.ly/3LIYFcU)

OUTRA INDICAÇÃO DE BIOGRAFIA

- Carolina Maria de Jesus. Disponível em LITERAFRO (letras.ufmg.br/literafro) / https://bit.ly/3579Mf6

O QUE É SLAM?

 

O que é Slam? Poesia, educação e protesto

Slam! 

A palavra é uma onomatopeia utilizada no inglês pra representar algo como um bater de palmas, e é o nome dado as batalhas de poesia que se espalham Brasil (e mundo) adentro. Adentro e abaixo, já que é nas periferias do hemisfério sul do mundo que essa ferramenta-comunidade-ação mais tem ganhado espaço.

Slam (ou Poetry Slams) são batalhas de poesia falada que surgiram nos anos 1980 nos Estados Unidos. Muitos chamam de “esporte da poesia falada” e, como aparece no documentário recém-lançado Slam: Voz de Levante, o responsável por organizar o primeiro Slam, Marc Kelly Smith, alega que resolveu utilizar da lógica da competição como forma de chamar atenção para o texto e performance dos poetas.

O que ocorre em um Slam é semelhante ao que acontece nos saraus, porém com algumas regras simples:

  • Poesias autorais (decoradas ou lidas na hora) de até três minutos;
  • Proibição da utilização de figurino, cenário ou instrumento musical;
  • São escolhidos, aleatoriamente, cinco jurados na plateia que serão os responsáveis por dar notas de zero a dez. Leva a competição aquele que tiver a maior nota.

No Brasil, o Slam chegou em 2008, por intermédio da artista Roberta Estrela D’Alva, através do ZAP! Slam (Zona Autônoma da Palavra) na cidade de São Paulo. Não demorou para que viesse então o Slam da Guilhermina, que ocorre na periferia de São Paulo, lado leste do mapa, e tantos outros que foram surgindo, como: Slam Capão, Slam da Norte, Slam Paz em Guerra, Slam Resistência, Slam Caruaru, dentre muitos outros.

Mapa de saraus e slams no Brasil.


Hoje, no estado de São Paulo, estima-se que há cerca de 50 Slams. O movimento se espalhou pelo Brasil e, na estimativa geral realizada em 2018, havia cerca de 150 comunidades de Slam no país todo, sendo que em praticamente todos os Estados há pelo menos um.

A partir disso se estrutura um circuito de competição: cada Slam, ao encerrar seu ciclo no fim do ano, promove uma final que vale uma vaga para o Campeonato Estadual (SLAM SP, SLAM MG, SLAM RJ, SLAM BA, etc.) e este leva seu(s) representante(s) para o Campeonato Brasileiro de Poesia Falada – SLAM BR. É do Slam BR que sai a pessoa para competir no Campeonato Mundial que acontece na França. A poeta que o Brasil enviou em 2019 foi a mineira Pieta Poeta.

Muito mais do que só palavras

Durante muito tempo – e talvez ainda até hoje, em alguns momentos e espaços – se entendeu a poesia como algo elitizado, limitado aos círculos acadêmicos, porém, aquilo que aqui chamamos de literatura periférica ou marginal (marginal em relação a qual centro?) ou qualquer outro nome que é dado para essa poesia produzida nas favelas e periferias das cidades brasileiras, tem mostrado uma outra cara para a poesia escrita e falada.

O movimento dos Slams pegou carona no que já vinha sendo construído pelos Saraus, como o Sarau da Cooperifa ou o Sarau Elo da Corrente, e ajudou a espalhar esse vírus da literatura em ruas, praças, bares, universidades e escolas.

Essa ferramenta que é o Slam, além de ser uma impulsionadora de empoderamento individual, de superação de barreiras como a timidez ou mesmo a falta de espaço para expor sua poesia, é também uma ferramenta de organização política coletiva. O movimento é hoje um forte aliado das causas sociais, um grande propulsor de visibilidade para as pautas negras, indígenas, LGBTQI+, feministas, pessoas com deficiência, anticapitalista, ambiental, etc.

O Slam é um espaço livre para se falar do que quiser: dor, amor, natureza, família; esses temas relacionados à sociedade são muito recorrentes nas poesias: o próprio surgimento de Slams voltados para um público específico é uma prova da capacidade de organização coletiva em torno da palavra. Entre alguns exemplos, estão:

  • Slam das Minas, onde apenas mulheres podem batalhar;
  • Slam Marginália, onde apenas travestis, pessoas trans e gênero-dissidentes podem batalhar;
  • Slam do Corpo, protagonizado por surdos, ouvintes e intérpretes;
  • Slam des Surdes, onde apenas pessoas surdas batalham, não havendo intérprete.

O Slam no espaço escolar

Para além de palco, microfone e competição, o Slam também se configura como um espaço livre, educativo e democrático de fala e escuta; não é à toa o seu sucesso entre jovens e adolescentes. Seja através dos vídeos no YouTube e Facebook, seja pela presença nas batalhas ou nas diversas oficinas realizadas por poetas nas escolas, a palavra poesia ganhou um outro significado para muitos estudantes.

Esse namoro entre a escola e o Slam levou a criação do Slam Interescolar em São Paulo, que é um circuito de batalha de poesia que ocorre em rede nas escolas públicas de São Paulo. Para além disso, há diversas escolas que utilizam o Slam como ferramenta pedagógica ou mesmo os trabalhos dos poetas dos Slams e saraus como referência nas aulas.

Uma escola na rua, uma ágora contemporânea, um esporte, uma comunidade, uma forma de expressão… O Slam é tudo isso e algo mais. Em tempos de defesa da democracia, defender e difundir o direito à palavra é um dever, e é pra isso que os Slams têm servido.

Grande é a importância de um espaço de voz para pessoas que têm sua voz negada em quase todos os outros, e de um espaço de escuta numa sociedade desacostumada a ouvir e aprender – com os mais velhos ou com os mais novos. A competição é o pano de fundo para esse fenômeno que se alastra e se levanta, aprendendo e ensinando uma velha lição que é incansavelmente repetida por diversos poetas: a poesia salva.

(Fonte: LUZ, Igor Gomes Xavier. O Que É Slam? Poesia, educação e protesto. Disponível em: profseducacao.com.br / https://bit.ly/3rTIyBx)

VÍDEOS

Slam: conheça a "batalha de poesia" 
Slam ganha força nas periferias do Brasil e cria geração de poetas urbanos. No Dia Mundial da Poesia, conheça a “batalha de poesia”, movimento criado nos EUA que tem se tornado fonte de conscientização no Brasil

(Fonte: canal Secretaria Especial da Cultura - YouTube / https://bit.ly/3oUSWHp)

Slam Sujeira Sereia
(Fonte: canal Gica TV - YouTube / https://bit.ly/36qbGYZ)

Tenho apenas 15 anos / Marcos Vieira
(Fonte: canal Slam da Guilhermina - YouTube / https://bit.ly/353yRaC)

XAMÃ
(Fonte: canal Grito Filmes - YouTube / https://bit.ly/3uT3yKB)

Slam carioca: Gabz
(Fonte: canal TED Talks - YouTube / https://bit.ly/3BqRHEE)

SLAM BR 2017 Final - Laura Conceição
(Fonte: canal Gica TV - YouTube / https://bit.ly/3JB1DOR)

Tawane Theodoro - Poesia "Eu não queria ser feminista"
Slam da Guilhermina – Final 2017

(Fonte: canal Gica TV - YouTube / https://bit.ly/3uWEdPS)

Slam Resistencia -  o poeta Rafael Carnevalli falando sobre a realidade opressora brasileira


(Fonte: canal Guerrilhavideos - YouTube / https://bit.ly/3LGPA4f)

Lucas Affonso - Slam da Guilhermina na FLIP (Festa Literária Internacional de Paraty)
(Fonte: canal YouTube -  https://bit.ly/3rUwzDN)

ANO 2024 - Bem-vindos!

CARDÁPIO DO MÊS - Abril 2024

O projeto CARDÁPIO DO MÊS tem por objetivo chamar a atenção dos usuários da Sala de Leitura para determinadas obras que a cada mês são sel...