quinta-feira, 30 de junho de 2022

SÉRIE FICÇÃO CIENTÍFICA / DISTOPIA: Júlio Verne

Para começar este artigo, citarei um trecho de um artigo acadêmico escrito por Daniel Vechio, no qual ele explica como o gênero ficção científica (ou utopia científica), com narrativas nas quais a humanidade aposta tudo na tecnologia como forma de construir uma sociedade perfeita e justa, acaba por se entrelaçar com o gênero distopia, sendo que este último apresenta narrativas em que o ser humano sente-se oprimido, desajustado e escravizado em uma sociedade em que a máquina e a ciência prevalecem no comando social vendendo uma imagem falsa e hipócrita de perfeição, felicidade e progresso. 
(André Luiz Gattás)

(...)
Mas é preciso frisar, antes de tudo que, apesar da intensificação das distopias, a crença na possibilidade da ciência e da tecnologia produzirem uma sociedade utópica, na verdade, nunca desaparece. Desse modo, o que temos aqui é um cruzamento das representações literárias opostas da ciência e da tecnologia a partir do século XIX. Como dito, na medida em que a defesa de soluções tecnológicas para problemas sociais era representada pelas utopias, havia também quem delas duvidasse.
Podemos apontar como distopia científica produzida nessa época, a obra The Age of Science, A Newspaper of the Twentieth Century (1877) de Frances Power Cobbe (1822-1904) que representa uma ciência levada aos extremos, em que pessoas são executadas como hereges por ir contra seus princípios industriais e econômicos. E. M. Forster (1879-1970), em seu famoso The Machine Stops (1909), também apresenta os perigos que há se a humanidade se tornar completamente dependente da ciência. O seu conto é uma distopia científica em que uma civilização inteira morre porque perde sua originalidade de existir entre as máquinas.

Portanto, enquanto a utopia científica demanda uma atitude de maravilhamento através da ciência e seus cientistas, os escritores das distopias mostram uma crescente ambivalência em relação a sua disseminação através do estranhamento de um ser humano em um mundo desumano, tomado completamente pela industrialização e suas relações mecanicistas. Essa característica é frequentemente suprimida na leitura comum realizada de muitas ficções científicas produzidas durante o século XIX e XX. Desde Wells até Huxley essa ambivalência é dificilmente captada pela crítica. Ela fica, talvez, mais clara na obra de H. G Wells, erroneamente considerado um cego defensor do avanço científico. Em seus escritos, os problemas, na maioria dos casos, surgem do medo de que a ciência possa ser usada de forma abusiva.

Para muitos escritores de ficção científica como Wells ou Júlio Verne, a máquina é uma força irracional que reflete uma realidade artificial, ou seja, provoca uma teia de relações mecânicas que deteriora seus artistas e pensadores distintos: (...).
(...)
Fonte: VECHIO, Daniel. ESTUDOS INTRODUTÓRIOS SOBRE A UTOPIA E A DISTOPIA CIENTÍFICA NAS OBRAS DE JÚLIO VERNE. Disponível em: RECORTE– revista eletrônica, ISSN 1807-8591 V. 11 - N.º 2 (julho-dezembro - 2014) - https://bit.ly/38zcxrq

Obras de JULIO VERNE presentes em nosso acervo:

A Ilha Misteriosa
Conta as aventuras de um grupo de abolicionistas estadunidenses que, após uma fuga num balão, encontram uma ilha desconhecida. Por vezes, o nome Ilha Misteriosa é usado simplesmente como referência à Ilha Lincoln, ilha fictícia no oceano Pacífico (34° 57' S 150° 30' O), onde a história se desenrola.

Uma grande aventura e, também, um guia de sobrevivência
A ilha misteriosa é um grande clássico e possivelmente a maior aventura que Jules Verne escreveu. Nesta obra grandiosa, o autor demonstra mais uma vez seu grande conhecimento das ciências, em um amplo espectro, indo da geologia, passando por zoologia e botânica, até à astronomia. Chega a ser um compêndio para a sobrevivência em uma ilha remota. Nesse caso, para a sobrevivência dos náufragos do ar. Cyrus Smith, um dos náufragos, é o líder e cabeça da equipe, mas os outros desenvolvem papel importante para a evolução da pequena sociedade que eles formaram. Uma sociedade que chega a ser uma utopia, pois não há conflitos e raramente um deles chega a discordar veementemente sobre a opinião do outro. Assim, nós vemos ao longo da história como "meros" 5 homens (e mais 1 depois) e um cachorro, vão sobrevivendo e transformando o ambiente da ilha a favor deles. É uma síntese da evolução humana a passos largos. Além disso tudo, há mistérios que rondam o cotidiano dos sobreviventes que dá um gosto a mais nessa aventura. Apesar das partes bem descritivas, que faz parte da escrita de Jules, deixar alguns leitores cansados, essas mesmas partes são de interesse para quem gosta de conhecer mais sobre ciências e a natureza em geral. E no mais, é uma narrativa muito interessante e que instiga ao leitor saber qual será os próximos acontecimentos naquela ilha isolada do mundo.
(Fonte: Bruno, Rafael. Disponível em: skoob.com.br/comentarios - https://bit.ly/3a74wLg)

Vinte Mil Léguas Submarinas
Uma expedição parte em busca de respostas mas é atacada por uma criatura e três homens são lançados ao mar. Aronnax, Conselho e Ned Land são resgatados pelo suposto monstro, que descobrem se tratar de um submarino, comandado pelo capitão Nemo. Ele os salva da morte, mas pede um preço alto: serão prisioneiros para sempre.

Publicado em 1870, Vinte Mil Léguas Submarinas é uma das obras de aventura quintessenciais da literatura ocidental. Mais do que isso, o francês Jules Verne ajudou a estabelecer um tipo de romance que, sem abrir mão por um segundo da mais eletrizante carga de entretenimento, apresentava e discutia as principais questões que norteavam o conhecimento científico de seu tempo. E ia além, perscrutando o futuro. A aventura começa quando Dr. Pierre Arronax é convidado pelo Secretário da Marinha dos Estados Unidos a participar de uma expedição de pesquisa naval a bordo do Abraham Lincoln. O objetivo é encontrar um monstro marinho, avistado no Oceano Pacífico. Durante o confronto, Arronax, seu criado Conseil e o arpoador canadense Ned Land são lançados ao mar, para serem subsequentemente resgatados pelo submarino do capitão Nemo, o Nautilus. Narrado por Arronax, o livro é um vasto passeio pelos oceanos do mundo e suas maravilhas submarinas, descritas em detalhes por Verne. Não é apenas a tecnologia que o interessa, mas também a fauna e a geografia marítimas, tudo reforçado em seu maravilhamento da imaginação – como no episódio da luta da tripulação do Nautilus contra uma lula gigante. 
(Fonte: livrosefuxicos.com / https://bit.ly/3udvqbb)

Viagem ao Centro da Terra
Nesse livro Verne conta a história de uma fantástica viagem, motivada pelo encontro de uma misteriosa mensagem escrita em letras rúnicas em um pergaminho, esquecido dentro de um livro de cerca de 700 anos! O professor Lidenbrock e Axel, seu sobrinho, conseguem decifrar a mensagem e partem de Hamburgo, na Alemanha, rumo à Islândia, para tentar chegar ao centro da Terra!!!

Em meados dos anos 1863, o renomado professor de mineralogia Otto Lindenbrock faz uma descoberta surpreendente entre alguns livros velhos: um mapa exploratório descrevendo o que parecia um paraíso intocável dentro do globo. Convencido de que as runas antigas do mapa e que a história possa ser verdadeira, ele e o seu temeroso sobrinho Axel partem para a extraordinária aventura.

“A ciência, meu rapaz, é feita de erros, mas de erros que é bom cometer, pois conduzem à verdade.”

Acompanhados de um guia de pouca conversa, Hans, eles adentram o globo através de uma caverna e vão tomando notas de tudo o que vão encontrando pela frente, desde temperatura, geologia, química e biologia. Mas logo a aventura se mostrará mais desafiadora do que jamais puderam imaginar.

Em meio a túneis sem fins e precipícios mortais, os aventureiros passarão por grandes momentos de aperto e desespero, desde falta de recursos e mantimentos, bem como riscos mortais por todos os lados. Mas tudo valerá a pena para contemplar uma das mais belas vistas de toda a história e um mundo preservado da ação destrutiva do ser humano.

(Fonte: resenhadossonhos.com / https://bit.ly/3OVTuaz)

QUEM FOI JÚLIO VERNE
Jules Gabriel Verne nasceu em Nantes, França, 8 de fevereiro de 1828, primogênito dos cinco filhos de Pierre Verne, advogado, e Sophie Allote de la Fuÿe, oriunda de uma família burguesa da cidade. Era neto de um grande viajante e alfabetizou-se com a viúva de um capitão marítimo. Posteriormente, estudou Humanidades em sua cidade natal e Direito em Paris.

Inicia sua carreira literária logo após a desilusão de seu pai com a carreira de advogado. Assim, tenta ingressar no teatro, escrevendo peças e poemas, além de tentar a sorte com a música, sem sucesso. Em 1848, compõe, em parceria com Michel Carré, dois libretos para operetas, e, dois anos depois, uma comédia versificada, junto com o posteriormente célebre Alexandre Dumas Filho. Entretanto, só descobriu sua verdadeira vocação ao escrever narrativas de viagens.

Alguns biógrafos afirmam que a infância em Nantes, cidade portuária, pode ter estimulado esse pendor, já que o garoto adorava ficar olhando os navios chegarem e partirem. Durante sua vida, nunca viajou muito, tendo feito apenas viagens curtas no seu iate Saint-Michel, visitas rápidas à Inglaterra, Escócia e outros destinos próximos, e uma viagem de navio aos EUA. Todavia, em seus livros, percorreu o mundo, indo da África à Antártida.

O início da carreira, como costuma ocorrer com todos os grandes escritores, é marcado por dificuldades. Seu livro Cinco Semanas no Balão é recusado por 15 editores, com acusações de tentativa ingênua de previsão do futuro, até ser publicado na revista Magazin d'Éducation, resultando em gigantesco sucesso de público e crítica.

Por intermédio do amigo Alexandre Dumas Filho, Verne conhece Pierre Jules Hetzel, o editor mais influente de Paris, que lhe propõe escrever, pelo menos, um livro por ano. Entre as mais célebres, destacam-se Viagem ao Centro da Terra (1865), Da Terra à Lua (1865), Vinte mil léguas submarinas (1869), Os Ingleses no Polo Norte (1870), A Volta ao Mundo em Oitenta Dias (1872), Miguel Strogof (1876) e Um Capitão de 15 Anos (1878).

Além disso, é um dos pioneiros do gênero “Ficção Científica”, tal como o conhecemos atualmente, e, sobretudo, um visionário, tendo previsto inventos como o condicionador de ar, o cinema falado, a iluminação, a televisão, etc.

Suas influências passeiam por Jonathan Swift, com seu livro Viagens de Gulliver, Daniel Defoe e seu Robinson Crusoé, e Edgar Allan Poe e seus contos macabros. Verne compreendia perfeitamente as preferências dos leitores de todas as idades, conseguindo, como poucos, prender sua atenção.

Em 24 de março de 1905, Verne pediu a um criado um exemplar do livro Vinte Mil Léguas Submarinas, perguntou pela mulher e os filhos, cerrou os olhos e faleceu. A atualidade de suas obras, tal como sua popularidade, mantém-se intactas, sendo um dos autores mais conhecidos e apreciados da História da Literatura.

(Fonte: https://www.infoescola.com/escritores/julio-verne/)

sexta-feira, 13 de maio de 2022

Gêneros FICÇÃO CIENTÍFICA e DISTOPIA: A Máquina do Tempo, de H. G. Wells

A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells

Esta obra literária escrita pelo inglês H. G. Wells, surge, coincidentemente, na mesma época em que os irmãos Lumière davam os primeiros passos na França com sua invenção genial, o cinema. Estávamos, então, no final do século XIX, num momento em que se apresentava um panorama histórico no qual se percebia o desejo dos seres humanos por poder manipular o Tempo para frente e para trás, aumentando ou diminuindo sua velocidade; enfim, manipulá-lo a seu bel prazer.

“(...) A história da ficção científica considera ao livro de Wells um marco pelo fato de pela primeira vez a viagem no Tempo deixar de depender dos recursos fantasistas clássicos (um sonho, uma visão, uma poção mágica, uma hibernação prolongada, um transporte involuntário por meios desconhecidos para instituir, modernistamente, a possibilidade de um mecanismo controlado pelo passageiro, que pode assim deslocar-se na direção que quiser, parando onde bem entender, e retornando ao ponto de partida quando lhe for conveniente. Um automóvel para viajar no Tempo, em outras palavras. Relendo a obra, no entanto, constatamos que seu caráter inovador repousa menos no hardware (a máquina em si, cujo modo de funcionamento não é explicado em momento algum) do que no software: a cuidadosa (e em certa medida falaciosa) argumentação do Viajante no Tempo sobre as quatro dimensões e a possibilidade de alguém se deslocar na quarta com a mesma facilidade com que se desloca nas outra três. (...)”

“(...) A literatura utópica do século XIX geralmente projetava um indivíduo numa sociedade futura ou distante, e lhe apresentava um habitante local para servir-lhe de guia. Este recurso conferia à obra um caráter didático, explicativo. A aventura que havia era uma aventura peripatética, uma aula de História ao longo de um passeio ilustrativo. Wells despreza esse recurso e joga seu Viajante num futuro desconhecido e cheio de ameaças, entregue aos seus próprios recursos e contando apenas consigo mesmo para interpretar o que vê. Com A Máquina do Tempo, a literatura utópica e futurista foi se transferindo do âmbito dos diálogos filosóficos para o dos romances de aventuras. (...)”

(Fonte: TAVARES, Bráulio. Prefácio de “A Máquina do Tempo”, de H. G. Wells. Editora Alfaguara, 2010, Rio de Janeiro)

RESENHAS SOBRE A OBRA:

(...)
Não sei vocês, mas eu gosto muito de ler livros antigos e perceber coisas desse tipo: H. G. Wells colocou o espaço quadridimensional (comprimento, largura, altura e tempo) em sua história, quando Einstein ainda era adolescente. Somente dez anos depois da publicação de A Máquina do Tempo, o físico publicou seus trabalhos sobre a teoria da relatividade, em que é utilizada a ideia das quatro dimensões na geometria do espaço-tempo, substituindo os dois conceitos utilizados de forma independente na teoria de Newton.
(...)

(Fonte: MANTOVANI, Michelle. A Máquina do Tempo – Resenha. Disponível em: deviante.com.br, em 25/09/2020 - https://bit.ly/3FI3j8k)

A Máquina do Tempo foi a primeira obra de ficção científica a retratar a viagem do tempo na ficção. Depois de tantas obras já utilizarem este recurso na narrativa, saiba qual a utilidade de conhecer o livro pioneiro nesta resenha. (...)
(Fonte: ARAUJO, Diego. Resenha: "A Máquina do Tempo" de H.G. Wells. Disponível em: ficcoeshumanas.com.br, https://bit.ly/3waJHH7


VÍDEO-RESENHAS SOBRE A OBRA:

A MÁQUINA DO TEMPO do H. G. WELLS: RESENHA E EXPLICAÇÃO | Darwinismo político e social
(Fonte: canal Projeto Nocente / YouTube / https://bit.ly/3l64qW0)

A MÁQUINA DO TEMPO, de H. G. WELLS
(Fonte: canal Abstração Coletiva / YouTube / https://bit.ly/3Mcwbbw)

A MÁQUINA DO TEMPO, de H. G. WELLS, um precursor do gênero
(Fonte: canal Duda Menezes / YouTube / https://bit.ly/3LaxYw8)

QUEM FOI H. G. WELLS?

Herbert George Wells
, mais conhecido como H. G. Wells, nasceu em um distrito da grande Londres, a 21 de setembro de 1866.
Na juventude foi
aprendiz de negociante de panos, porém esta experiência só foi bem-sucedida no sentido de colher experiências para uma de suas futuras obras.
Em 1883 começou a lecionar na
Midhurst Grammar School, até conseguir uma bolsa para estudar biologia com T. H. Huxley, na Escola Normal de Ciências em Londres.
Wells tornou-se conhecido por seus
“romances de ficção”, carregados de suas visões políticas e que antecipavam inúmeras situações vividas pela sociedade posteriormente.
Mesmo escrevendo sobre outros tempos, lugares, e até mesmo formas de vida, jamais deixou de se referir à própria realidade. Escreveu sobre luta de classes, questionou a ética da ciência, e anteviu bombardeios.
Em seus romances que não possuíam cunho científico, menos conhecidos pelo grande público, fazia
críticas sociais ainda mais consistentes. Os costumes, dilemas e a ruína da baixa burguesia vitoriana, por exemplo, estiveram em várias de suas obras. Chegou a escrever, até mesmo, sobre os direitos das mulheres.
Suas narrativas abordavam, com fascínio e desconfiança, a aplicação de
tecnologias, sejam elas do futuro real ou ficcional. Alguns estudiosos atribuem a qualidade científica de suas ficções aos oito anos em que foi professor de ciências e zoologia.
Sua carreira de escritor teve início com artigos científicos, que na realidade não alcançaram tanta repercussão.
Fez parte da
Sociedade Fabiana, que tinha como propósito transformar, de forma gradual, a sociedade da Inglaterra, orientada pelo socialismo. Passa, então, a enxergar o nacionalismo como causa principal das catástrofes que acometiam a humanidade. Acaba por deixar a sociedade, e passa a dedicar-se a ideia de um Estado Universal, descrito em uma de suas obras.
Com o avançar da idade, seu
pessimismo em relação ao futuro da humanidade foi aumentando, e esse sentimento pode ser claramente identificado em seu último livro, onde mais do que contar uma história, Wells pregava acontecimentos posteriores. Não mais utilizava de sua inicial capacidade inventiva, apenas fazia constatações sobre um futuro não muito distante.
H. G. Wells faleceu no dia 13 de agosto de 1946, em Londres.
 
Principais obras:
A Guerra dos Mundos
A Máquina do Tempo
A Porta no Muro
Kipps
Ann Veronica

(Fonte: RAMOS, Thaciane Rollemberg. H. G. Wells. Disponível em infoescola.com / https://bit.ly/3xO5YKa)

quinta-feira, 5 de maio de 2022

DISTOPIA - QUE GÊNERO LITERÁRIO É ESSE?

Gênero literário: Distopia

A distopia é uma temática presente principalmente na filosofia, no cinema e na literatura que, ao lado da utopia, discute a natureza humana insatisfeita e sempre em busca de um lugar melhor.

Baseando-se nas estruturas sociais, a utopia apresenta uma civilização ideal, perfeita (e, consequentemente, inalcançável). Por sua vez, a distopia mostra e reforça o lado negativo desse processo, tanto com os excluídos do “paraíso” quanto com o processo opressor, totalitário e autoritário adotado para alcançar e/ou manter esse modelo social.

Nas distopias, as relações de poder são sempre de cima para baixo. Por trás da aparência de sociedade organizada e feliz existe a manipulação, a alienação e a censura, seja pelos órgãos do Estado ou pelas corporações. Qualquer discordância é sumariamente destruída, tanto pela tortura quanto pela morte. A individualidade não existe e as pessoas são consideradas apenas uma peça dentro de uma estrutura maior.

Segundo a teoria literária, o tema tem suas raízes em A Utopia (1516), de Thomas Morus. A obra narra a história de uma sociedade que, numa ilha, aboliu a propriedade privada e a intolerância religiosa e estabeleceu uma ordem justa e igualitária. Apesar disso, algumas considerações remontam a discussão ao ano de 380 a.C., quando Platão discutia a criação de uma sociedade ideal em A República, sem utilizar a palavra utopia.

No caso da distopia, o primeiro romance foi Nós, escrito pelo russo Ievguêni Zamiátin no começo da década de 1920. Censurado, o autor apresentou um governo totalitário sob o nome de Estado Único que privou a população de direitos fundamentais, como livre-arbítrio e a imaginação, para melhorar o bem-estar da sociedade. O mundo, completamente mecanizado, lógico e controlado pelo Estado, serviu como inspiração para as distopias mais famosas, como 1984 (1949) e o seu Grande Irmão, Admirável Mundo Novo (1932) e Fahrenheit 451 (1953). Essas influências são sentidas até hoje em livros como Jogos Vorazes (2008).

Estrutura de uma distopia na literatura:

O lugar utópico, que guia a história dos livros, pode surgir de dois caminhos: um passado mítico, romantizado e repleto de abundância ou um futuro modificado por revoluções sociais e tecnológicas. No texto distópico, as organizações e o Estado são corruptos, as tecnologias ão utilizadas como ferramentas de controle e o discurso da obra é, geralmente, pessimista.

Nesse contexto, é possível destacar alguns elementos recorrentes nessas obras. O primeiro deles é o herói deslocado, que passa por uma tomada de consciência e se solta da estrutura social, que conta com o auxílio de alguns ajudantes. Além disso, o cenário autoritário é frequentemente o antagonista da aventura, e tem apoio de instituições e agentes, ligados a uma tecnologia cerebral e totalitária. Esses elementos acentuam a miudeza do protagonista em relação ao sistema e a falta da individualidade.

Os elementos se estruturam numa narrativa composta pela introdução, onde a relação do protagonista com o mundo é descrita; a tomada de consciência vem em seguida, quando o herói percebe problemas no mundo a sua volta e, em geral, descobre que não está sozinho; Em seguida, temos a luta contra o sistema e seu respectivo desfecho – que é, em sua maioria, o exílio ou a morte do protagonista e seus ajudantes.

Algumas distopias brasileiras:

1 - Não Verás País Nenhum, de Ignácio Loyola de Brandão¹: Provavelmente a mais lembrada das distopias brasileiras, o livro é de uma aridez e de uma opressão que impactam seus leitores. No universo da trama um país entregue às multinacionais e desertificado, sem água e sem alimento. Para comandar isso tudo a hierarquia onipresente e invisível do Estado, que no caso é O Esquema, movido por corrupção e jeitinhos. Uma leitura indispensável.

2 - Admirável Brasil Novo, de Ruy Tapioca: O romance se ambienta num Brasil de 2045 e segundo Cristovão Tezza "é a representação de um imaginário poderoso sobre o Brasil, que não pode ser desprezado. Nessa imagem, o que assusta de fato não são os engarrafamentos gigantescos, a pestilência do ar ou a vulgaridade da televisão; o que realmente mete medo é a idéia de que a democracia é um regime fracassado e incapaz, de que "os brasileiros" (com os quais não temos nada a ver) votam mal, e que "nós" não dispomos de meios de salvá-los senão os imaginados há 50 anos, para, então, começar de novo".

3 - Cyber Brasiliana, de Richard Diegues: Nesta obra de 2010 e de sucesso entre geeks e nerds temos uma distopia que inverte o eixo de poder do mundo com relevância do Brasil, mas que acima de tudo penetra o universo cyberpunk com seu Hipermundo possibilitando uma realidade alternativa.

4 - Sombras de Reis Barbudos, de Jose J. Veiga: É provável que seja quase um exagero colocá-la aqui por causa de um único fator: a obra não olha para o futuro, como em geral das distopias, contudo neste romance de Veiga as estruturas de poder são intrinsecamente as estruturas de poder das distopias, só que aqui ao invés de flertar com a ficção científica o autor parte para o realismo fantástico e o insólito.

5 - Rio - Zona de Guerra, de Leo Lopes: A obra traz um elemento recorrente à realidade carioca e que também é abordada no filme Uma História de Amor e Fúria em que o controle se dá por megacorporações criadas por milícias.

(Fonte: Editora Bookmarks - Equipe de Marketing, 17/03/2020. Disponível em: https://bit.ly/3LKxaPS)

Notas:
1. Ignácio de Loyola Brandão é um escritor araraquarense, consagrado e reconhecido em âmbito nacional e internacional.

TÍTULOS DO GÊNERO DISTOPIA PRESENTES NO ACERVO DE NOSSA SALA DE LEITURA (até o momento):

  • Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift (02 exemplares)
  • Viagem ao Centro da Terra (1864), de Júlio Verne (01 exemplar)
  • Vinte Mil Léguas Submarinas (1870), de Júlio Verne (01 exemplar)
  • A Ilha Misteriosa (1875), de Júlio Verne (01 exemplar)
  • A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells (44 exemplares)
  • Admirável Mundo Novo (1932), de Aldous Huxley (16 exemplares)
  • A Revolução dos Bichos (1945), de George Orwell (03 exemplares)
  • Fahrenheit 451 (1953), de Ray Bradbury (04 exemplares)

  • Uma Dobra no Tempo (1962), Madeleine L’Engle (trilogia)
                 Livro 1: Uma Dobra No Tempo (01 exemplar)    
               Livro 2: Um Vento À Porta (01 exemplar)
             
      Livro 3: Um Planeta Em Seu Giro Veloz (01 exemplar)

  • Androides Sonham com Ovelhas Elétricas? (1968), de Philip K. Dick, também conhecido como Blade Runner - O Caçador de Andróides, nome dado à adaptação da obra para o cinema (16 exemplares)
  • O Conto da Aia (1985), Margaret Atwood (01 exemplar)
  • Trilogia da Saga "Divergente" (2011-2013), Veronica Roth

              Livro 1: Divergente (16 exemplares)
              Livro 1: Insurgente (16 exemplares)
              Livro 3: Convergente (16 exemplares)

  • Quatro (2014) - histórias da série Divergente, Veronica Roth (01 exemplar) 

Outras artigos sobre o gênero literário DISTOPIA

MELO, Caroline. Vivendo um gênero literário: distopia. Disponível em: labdicasjornalismo.com,10/07/2020 (https://bit.ly/3MJSwgk)

- LIMA, Helder. Futuro sem perspectiva? Distopia atual é achar que o autoritarismo é normal, diz escritor de ficção científica. Disponível em: redebrasilatual.com.br, 22/10/2017 (https://bit.ly/3yehzEg)
Alexey Dodsworth, pesquisador do transumanismo, avalia o momento presente no Brasil e no mundo frente às obras clássicas do gênero que projetavam uma vida de regressões e opressão

- COLETTO, Sérgio. A Literatura da Distopia. Disponível em: obviousmag.org/artes e ideias (https://bit.ly/3MRxRXH)
Foram necessários romances que mostravam bárbaros regimes totalitários, fábulas com porcos, gangues violentas, controle biológico, uso indiscriminado de drogas e queima de livros para finalmente entendermos como era impraticável o modelo de utopia construído há alguns séculos atrás. Por isso são tão importantes os autores de "1984", "Laranja Mecânica", "Admirável Mundo Novo" e "Farenheit 451".

Vídeo-resenhas sobre o gênero literário DISTOPIA 

Qual a diferença: distopia x ficção científica

(Fonte: canal Bruna Miranda - YouTube / https://bit.ly/3OYA0mk)

O que é distopia?

(Fonte: canal Mundos Possíveis - YouTube / https://bit.ly/3OWiYFs)

Para você escrever Utopia, Distopia, Eutopia e Antiutopia

(Fonte: canal fantasticursos - YouTube / https://bit.ly/3OYb3Yc)

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2022

O que é um 'SARAU"?

O Que É Um Sarau
O sarau é um evento cultural ou musical onde as pessoas se encontram para se manifestarem artisticamente. Nele pode haver dança, música, récitas de poesias, leituras de trechos de livros etc. Entretanto, o mais importante é o clima de descontração presente nesses encontros, o que os torna ainda mais especiais.


Veja como é simples organizar um sarau
É uma boa ideia que se forme uma comissão para organizar o evento. Deve ser um grupo entrosado no qual as atividades possam ser divididas. Essa comissão poderá fazer a relação dos alunos e professores participantes e o que cada pessoa ou grupo fará artisticamente (declamar, tocar, cantar, dançar etc.) Por fim, é preciso definir o horário de início e a duração do evento para poder montar um cronograma informativo mais preciso para os convidados. 

Espaço e tempo
Dependendo do tamanho do evento é preciso que se escolha um local amplo onde as pessoas possam circular no dia e horário do evento. Não se esqueça da acessibilidade para os convidados. Além disso pense em uma decoração temática e atrativa, e, também, se existe a possibilidade de servir petiscos e bebidas para os convidados e participantes. Lembrando que tudo deve estar relacionado ao objetivo do sarau, o que ele pretende promover.
Busque parceiros que possam auxiliar tanto com incentivo financeiros quanto emprestando equipamentos que serão necessários para a realização do evento.
 
Diferencial

Convidar aqueles alunos, professores e funcionários que já exerçam alguma atividade artística para se apresentarem ajuda a abrilhantar o evento. Organize momentos de confraternização com os convidados, mesmo que sejam poucos os mobilizados, busque o máximo de interação e procure entreter os convidados durante o evento. Organize um espaço de interação onde os participantes que apenas estão visitando o evento possam contribuir de alguma forma com o evento, seja com uma poesia própria ou de algum autor famoso

Divulgação
Mobilize a escola, crie convites personalizados e divulgue para todos. Espalhe cartazes divulgando o evento, horário de realização etc. Lembre-se que pode contar coma a internet na divulgação do evento através dos grupos, nas mídias sociais.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

Livro da Semana: CAROLINA (HQ), de Silene Barbosa e João Pinheiro

“Com os dedos calejados, segura tocos de lápis como e fossem facas e escreve com vigor, letras de sangue e beleza.”

A capa da HQ Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiros, mostra a escritora coberta por letras. Intencional ou não, a bela edição da Veneta, possibilita um prelúdio do que é a história da escritora que melhor descreveu a favela. Carolina Maria de Jesus escreveu “Quarto de Despejo” contando a vida na favela e colocando seus pensamentos no papel. Esses pensamento foram descobertos pelo jornalista Audálio Dantas, que na época apurava uma matéria para o jornal Folha da Noite (hoje Folha de São Paulo) e deu visibilidade a obra de Carolina, o que resultou na publicação do livro e popularização da escritora.

A HQ reúne o apurado trabalho de pesquisa de Sirlene e o desenho sensível de João. Com ampla referência bibliográfica, Sirlene joga luz sobre a história da escritora, que embora tenha se tornado famosa na época e traduções em diversos países, sempre esteve em um espaço marginalizado da literatura nacional. Negra, pobre e favelada, Carolina usava suas letras para contar a Canindé, muitas vezes expondo os malfeitos de seus vizinhos e as confusões que geravam. Era rejeitada na favela e fora dela e cinquenta anos depois, ainda não tem sua obra valorizada e alçada aos clássicos da literatura.

Se por um lado, a preocupação em apresentar uma biografia precisa é louvável, por outro, a HQ transmite a sensação de correr em alguns trechos e se alongar desnecessariamente em outros. É apenas um pequeno incômodo, que não chega a prejudicar realmente o fluxo da leitura. A HQ é muito coerente e apresenta uma um retrato da escritora até encontrar o sucesso e talvez seja justamente a coerência e linearidade que provoque certo desconforto. Carolina é uma HQ linda, inteligente e necessária, mas não se arrisca muito dentro do quadrinho. Entrega o que promete e arte é belíssima, mas embora o tema seja inovador, caberia mais ousadia em sua apresentação.


Resgatar artistas que desafiem uma norma de intelectualidade branca e elite é valorizar a diversidade de narrativas e possibilidades que um país plural como o nosso abriga. Em tempos de discussão sobre os direitos das minorias políticas, precisamos questionar o porquê de não lermos Carolina na escola, o porquê de não conhecermos sua obra em profundidade.

(Fonte: FARIAS, Meire. 1Resenha Por Dia: Carolina (Sirlene Barbosa e João Pinheiros). Disponível em: armazemdacultura.wordpress.com / https://bit.ly/31JsEzp)

OUTRAS RESENHAS SOBRE ESTA OBRA

- FONTANA, Daniel. Carolina - Superação Verídica! Disponível em: formigaeletrica.com.br / https://bit.ly/3ycucOb

- PEDROSO, Gustavo. Resenha: Carolina, de Sirlene Barbosa e João Pinheiro. Disponível em: gibiteriadiagonal.wordpress.com / https://bit.ly/30bZRmn

SIMÕES, Isabelle. Carolina: literatura, classe, gênero e raça. Disponível em: deliriumnerd.com / https://bit.ly/3oFi7xH 

VÍDEO-RESENHA SOBRE ESTA OBRA

Mais Carolina: Diário de Bitita e a HQ Carolina
(Fonte: canal Aline Aimee - YouTube / https://bit.ly/3pG9yC3)

QUEM FOI CAROLINA DE JESUS?

(Foto: Acervo Nacional)
Carolina Maria de Jesus é uma das primeiras autoras negras publicadas no Brasil e teve sua vida atravessada pela miséria e pela fome. Favelada e catadora de papel, narrou em seus escritos a vida dura que teve desde a infância.

Além de instrumento de denúncia social produzido por alguém que efetivamente vivia nessas condições de vida devastadoras, suas mais de cinco mil páginas manuscritas, entre romances, contos, crônicas, poemas, peças de teatro, canções e textos de gênero híbrido, dotadas de estilo próprio, confrontam os ditames da tradição literária e da norma padrão culta da língua. Carolina foi publicada em mais de 40 países e traduzida para 14 línguas.

Natural da cidade de Sacramento, sudeste de Minas Gerais, Carolina Maria de Jesus nasceu em 14 de março de 1914. De origem muito humilde, era neta de escravos e uma entre os oito filhos de uma lavadeira analfabeta. Desde criança manifestava o desejo intenso de aprender a ler e a curiosidade incessante sobre o mundo — tudo perguntava, tudo queria saber.

Incentivada por uma das freguesas de sua mãe, Carolina ingressa aos sete anos no Colégio Alan Kardec. Cursa a primeira e a segunda séries do primário, mas teve que deixar a escola, pois a mãe não conseguia mais manter a si e aos filhos na cidade e resolveu mudar-se para a roça. Moraram ainda em diversos outros lugares, como Ubatuba, Franca e Ribeirão Preto, sempre lidando com dificuldades. Passaram fome, frio, não tinham onde morar.

Carolina chegou a São Paulo em 1947. Sua rebeldia natural fazia com que não se adaptasse ao trabalho de empregada doméstica. No ano seguinte, engravidou de um português, que a abandonou. Na época, ninguém dava emprego para mãe solteira e Carolina foi morar na rua. Foi então que chegou à favela do Canindé: o governador paulista Adhermar de Barros mandara recolher todos os mendigos pelas ruas e despejá-los num grande terreno à margem esquerda do rio Tietê.

Construiu seu próprio barraco, onde nasceram seus três filhos, João José (1948), José Carlos (1950) e Vera Eunice (1953), cada um de um relacionamento diferente. Carolina dizia que homem algum ia entender sua necessidade literária, pois estava sempre às voltas com os livros, os lápis, os cadernos, onde registrava tudo o que lhe cercava.

Foi no Canindé que seu talento foi descoberto: um jornalista estava no local, em busca de material para uma reportagem sobre a favela, que crescia acentuadamente. Viu Carolina ralhando com um bando de marmanjos que não queriam desocupar o parquinho, ameaçando colocar o nome deles em seu livro. O jornalista quis saber que livro era esse e percebeu ali o talento da escritora. Publicou algum dos escritos no jornal e reuniu os outros em Quarto de despejo, lançado em 1960.

A partir de então, Carolina conheceu o sucesso e a ascensão social, sendo convidada para diversas entrevistas e viagens, e virou assunto entre escritores de renome, como Rachel de Queiroz e Manuel Bandeira. Lançou mais dois livros e gravou um LP com canções de sua autoria. Foi traduzida para diversos idiomas e conhecida em inúmeros países. Saiu finalmente da favela e mudou-se para uma casa no bairro de Santana.

Entretanto o lampejo da fama durou pouco: em suas próprias palavras, Carolina tinha virado um artigo de consumo, alguém que é vista com curiosidade, mas descartada depois que a moda passa. Teve de voltar à condição de catadora de papel para garantir sua sobrevivência.

Morte

Carolina Maria de Jesus morreu no dia 13 de fevereiro de 1977, com 63 anos, cansada, asmática, esquecida pelo mercado editorial, morando num sítio em Parelheiros. Os livros publicados depois de Quarto de despejo não tiveram o sucesso do primeiro. O descaso fez com que a autora fosse preterida pelo cânone literário, mas a magnitude de seu trabalho criativo ressurge, nos últimos anos, devolvendo-lhe o epíteto de grande escritora que ela sempre soube ser seu.

Obras publicadas em vida

Quarto de despejo: diário de uma favelada (1960)

Casa de alvenaria: diário de uma ex-favelada (1961)

Pedaços da fome (1963)

Provérbios (1965)

Publicações póstumas

Diário de Bitita (1986)

Meu estranho diário (1996)

Antologia pessoal (1996)

Onde estaes felicidade? (2014)

Autora prolífica de diversos gêneros textuais, Carolina morreu deixando muitos manuscritos que, até os dias de hoje, não foram publicados.

(Foto: Acervo Nacional)
Quarto de despejo: diário de uma favelada

Livro de estreia da autora, foi o que lhe rendeu a fama e a importância em nossa literatura. Escrito em papéis que coletava dos lixos e das ruas da metrópole, separados entre os outros materiais recicláveis que garantiam o seu sustento, Quarto de despejo é um compilado dos diários da vida de Carolina, e reverbera em suas páginas a dureza da fome, o cheiro do lixo, a existência de tantos brasileiros que vivem em meio à miséria e aos dejetos:

“Quando estou na cidade tenho a impressão que estou na sala de visita com seus lustres de cristais, seus tapetes de viludo, almofadas de sitim. E quando estou na favela tenho a impressão que sou um objeto fora de uso, digno de estar num quarto de despejo.” (Carolina Maria de Jesus, Quarto de despejo, 1960, p. 37)

Ao quarto de despejo destina-se aquilo que não se quer mais, aquilo que se afasta dos olhos, que é descartável, indesejado. O livro revela ao leitor as condições degradantes de quem vive das sobras, num contexto de extrema pobreza na favela do Canindé, onde humanos conviviam com ratos e abutres, e o rio Tietê, muito próximo, tantas vezes inundava os barracos com lixo e dejetos.

A sujeira é um tema constante, junto com a pobreza, a fome e o racismo: sem dinheiro nem para comprar sabão, Carolina expõe o preconceito existente dentro da favela — um dos moradores chama-a de “preta imunda e vagabunda” —, desfazendo, entre muitos outros exemplos, o estereótipo do favelado unido e fraterno.

Ela mesma sentia-se superior por guardar entre seus pertences livros como Os miseráveis, de Victor Hugo, Éramos seis, de Leandro Dupré, e Primaveras, de Casimiro de Abreu, e acreditava vingar-se de seus vizinhos: porque era preta, favelada e miserável, mas escritora.

 

(Foto: Acervo Nacional)
“Eu sou negra, a fome é amarela e dói muito. [...] E assim no dia 13 de maio eu lutava contra a escravatura atual — a fome!”, diz a autora. A luta constante para conseguir dar de comer aos filhos e alimentar-se repete-se incessantemente, dividindo espaço com os acontecimentos da favela: a prostituição, os efeitos destruidores do álcool, a constante violência de homens que espancam suas esposas e o quanto essas mesmas esposas espancadas criticavam Carolina por esta não querer casar-se.

Quarto de despejo tornou-se um best seller, ultrapassando a venda de 10 mil exemplares em uma semana, tendo oito edições no ano de seu lançamento. Foi traduzido para 16 idiomas, publicado em 46 países e é um importante meio de denúncia de um Brasil extremamente desigual, uma tentativa literária de escapar a condições de vida sem o mínimo necessário para a sobrevivência, retrato lúcido de um país racista, esfomeado e sombrio, que não aparecia na grande mídia.

(Fonte: BRANDINO, Luiza. Carolina Maria de Jesus. Disponível em: mundoeducacao.uol.com.br / https://bit.ly/3LIYFcU)

OUTRA INDICAÇÃO DE BIOGRAFIA

- Carolina Maria de Jesus. Disponível em LITERAFRO (letras.ufmg.br/literafro) / https://bit.ly/3579Mf6

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