terça-feira, 21 de setembro de 2021

Trilha Antirracista / Sociologia: LUGAR DE FALA, de Djamila Ribeiro

Popularizado nos debates sociais brasileiro há poucos anos, o conceito de lugar de fala é usado atualmente por diversos ativistas de movimentos sociais. Entretanto, ainda resta muita dúvida no que a expressão realmente significa. [...]

Entendendo o conceito

“O lugar social não determina uma consciência discursiva sobre esse lugar. Porém, o lugar que ocupamos socialmente nos faz ter experiências distintas e outras perspectivas”.

A frase de Djamila Ribeiro, filósofa, feminista negra e escritora, faz parte do seu livro O que é lugar de fala? lançado em 2017. Nele, Djamila apresenta um panorama histórico sobre as vozes que foram historicamente interrompidas. A partir disso, é possível questionar: quem tem mais chances de falar (e ser ouvido) na sociedade?

Ao analisar a população brasileira, vemos que as minorias (grupos marginalizados na sociedade) ainda ocupam poucos espaços políticos sendo menos representadas e, por consequência, menos ouvidas.. É nesse momento que entra o lugar de fala.

Djamila explica que essa hierarquia estruturada na sociedade faz com que as produções intelectuais, saberes e vozes desses grupos sejam tratadas de modo inferior, fazendo com que as condições estruturais os mantenham em um lugar silenciado.

Sendo assim, a ideia do lugar de fala tem como objetivo oferecer visibilidade a sujeitos cujos pensamentos foram desconsiderados durante muito tempo. Dessa forma, ao tratarmos de assuntos específicos a um grupo, como racismo e machismo, pessoas negras e mulheres possuem, respectivamente, lugar de fala. Isto é, podem oferecer uma visão que pessoas brancas e homens podem não ter. Desse modo, o microfone é passado para as pessoas que realmente vivenciam aquela realidade.

Isso não significa que quem não faz parte daquele grupo não pode expressar sua opinião, entretanto, o ideal é abrir espaço para aprender, entender e respeitar o que aquele grupo está tentando dizer.

O lugar de fala é um pretexto para evitar o debate?

Não! O lugar de fala não se trata de calar ninguém, mas de abrir espaço para que diversas vozes sejam ouvidas e levadas a sério.

Giselle Marques, Coordenadora Regional da Rede Estadual de Afroempreendedorismo em Santa Catarina, afirma que, antes de haver o diálogo sobre opressões de gênero, raça ou classe, é necessária uma “escuta silenciosa”.

O lugar de fala traz, na sua essência, a consciência do papel do indivíduo nas lutas, criando uma lucidez de quando você é o protagonista ou coadjuvante no cenário de discussão. Não há silenciamento de vozes, na verdade é justamente nesse ponto que queremos avançar. Traz uma liberdade para cada grupo se reconhecer e entender em qual espaço se encontra conforme o processo de organização e falar com propriedade a partir dele.

Ou seja, o objetivo não é restringir a troca de ideias, encerrar uma discussão ou impor uma visão. Mas sim, abrir uma nova janela, com a perspectiva de alguém que antes não podia se expressar livremente em sociedade.

Lugar de fala e representatividade são a mesma coisa?
Representatividade significa representar com efetividade e qualidade um segmento ou grupo o qual se quer representar. Um trecho do livro de Djamila ilustra bem a situação:
“Uma travesti negra pode não se sentir representada por um homem branco cis (ou seja, aquele que se identifica com o gênero de nascença), mas esse homem branco cis pode teorizar sobre a realidade das pessoas trans e travestis a partir do lugar que ele ocupa. Acreditamos que não pode haver essa desresponsabilização do sujeito do poder. A travesti negra fala a partir de sua localização social, assim como o homem branco cis. Se existem poucas travestis negras em espaços de privilégio, é legítimo que exista uma luta para que elas, de fato, possam ter escolhas numa sociedade que as confina num determinado lugar, logo é justa a luta por representação, apesar dos seus limites”

Portanto, lugar de fala e representatividade não são a mesma coisa.

Entretanto, são conceitos que andam juntos. Afinal, a partir do momento que as camadas marginalizadas da sociedade se sintam representadas em espaços sociais, coletivos e políticos, é uma possibilidade a mais de serem ouvidas. Ou seja, de exercerem o seu lugar de falar.

Os movimentos sociais

Agora que entendemos o conceito de lugar de fala, podemos compreender como é importante que os movimentos sociais tenham suas lutas reconhecidas e legitimadas. Afinal, abrir espaço para que as pessoas exerçam seu direito de fala e sejam escutadas pode ajudar a sociedade a se tornar igualitária no futuro.

Hoje, por exemplo, a maioria dos eleitos na Câmara dos Deputados são homens e brancos – de acordo com pesquisa feita pelo G1 em 2018. Isso nos leva a pergunta: como os diferentes interesses, vivências e necessidades de grupos tão diversos podem ser representados por esse pequeno grupo tão homogêneo?

Bom, é pensando nisso que conceitos como lugar de fala devem ser cada vez mais discutidos e colocados em prática na nossa sociedade.

[...]

(Fonte: politize.com.br / https://bit.ly/3Cz6Enz)

CONFIRA ALGUMAS RESENHAS SOBRE A OBRA: 

- FREITAS, Thayanne T. RIBEIRO, Djamila. O que é lugar de fala? Belo Horizonte: Letramento, 2017. 112 p. (Feminismos Plurais). Disponível em: scielo.br / https://bit.ly/39nJVhR

- RESENHA | LUGAR DE FALA, DE DJAMILA RIBEIRO (COLEÇÃO FEMINISMOS PLURAIS). Disponível em: abookaholicgirl.wordpress.com / https://bit.ly/3CpINGW

- ‘Se quiserem debater, que leiam’, diz Djamila Ribeiro sobre racismo. Disponível em: portalgeledes.org.br / https://bit.ly/3AwEB7A

VÍDEO-RESENHAS SOBRE A OBRA: 

Curta! Livros | O que é lugar de fala?
(Fonte: canal Curta! - YouTube / https://bit.ly/3zwwTcp)


O QUE É LUGAR DE FALA? - Djamila Ribeiro | RESENHA 
(Fonte: canal Nath Braga - YouTube / https://bit.ly/2XButvE)

Djamila Ribeiro: "Lugar de fala não é impedir alguém de falar, é dizer que outra voz precisa falar"
(Fonte: canal Carta Capital - YouTube / https://bit.ly/3u0xx0P)

Djamila Ribeiro: "O que é lugar de fala?"

(Fonte: canal Oficinas Culturais do Estado de São Paulo - YouTube / https://bit.ly/3AvCssY)

Lugar de fala desconstrói a possibilidade de diálogo? - Luiz Felipe Pondé
(Fonte: canal Luiz Felipe Pondé - YouTube / encurtador.com.br/jouRW)

Precisamos romper com os silêncios

(Fonte: canal TEDx Talks - YouTube / shorturl.at/ikmCH)

QUEM É DJAMILA RIBEIRO?

Djamila Taís Ribeiro dos Santos, nasceu em 01 de agosto de 1980, em Santos, São Paulo. Ela iniciou o contato com a militância ainda na infância. Uma das grandes influências foi o pai, estivador, militante e comunista, um homem que mesmo com pouco estudo formal, era culto. “Desde muito cedo, eu e meus dois irmãos vivemos nesse meio. Com seis anos, já íamos para atos. A gente debatia esses temas em casa, e meu pai nos fazia estudar a história do nosso povo”, relembra.

O movimento feminista entrou na vida da filósofa aos 19 anos, quando conheceu a ONG Casa de Cultura da Mulher Negra, em Santos, onde trabalhou por cerca de quatro anos. Lá teve contato com obras de feministas e de mulheres negras e passou a estudar temas relacionados a gênero e raça.[2] Graduou-se em Filosofia pela Unifesp, em 2012, e tornou-se mestre em Filosofia Política na mesma instituição, em 2015, com ênfase em teoria feminista. Em 2005, interrompeu uma graduação em Jornalismo. Suas principais atuações são nos seguintes temas: relações raciais e de gênero e feminismo.

É colunista online da CartaCapital, Blogueiras Negras e Revista Azmina e possui forte presença no ambiente digital, pois acredita que é importante apropriar a internet como uma ferramenta na militância das mulheres negras, já que, segundo Djamila, a “mídia hegemônica” costuma invisibilizá-las.

Em maio de 2016, foi nomeada secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo durante a gestão do prefeito Fernando Haddad. Escreveu o prefácio do livro “Mulheres, raça e classe” da filósofa negra e feminista Angela Davis, obra inédita no Brasil e que foi traduzida e lançada em setembro de 2015. Participa constantemente de eventos, documentários e outras ações que envolvam debates de raça e gênero. Escreveu os livros: “O que é um lugar de fala?”( o livro aborda a urgência pela quebra dos silêncios instituídos, trazendo também ao conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da história), “Quem tem medo do feminismo negro?. E também a “revista observatório itaú cultural”.

(Fonte: ABREU, Carolina. MULHERES EM TODAS AS CORES – DJAMILA RIBEIRO. Disponível em: mulheresnaciencia.com.br / https://bit.ly/3Ab57TY)

quarta-feira, 15 de setembro de 2021

Trilha Antirracista: E EU NÃO SOU UMA MULHER?, de bell hooks

(Foto: acionista.com.br)
[...]
E eu não sou uma mulher? (Ain’t I a woman?, do título original) foi publicado originalmente em 1981 e é o primeiro livro de bell hooks, escrito quando a intelectual ainda estava na faculdade. Seu título faz referência ao célebre discurso de Sojourner Truth, uma das mais famosas abolicionistas negras e defensora dos direitos das mulheres dos Estados Unidos, que em 1851 proferiu um veemente discurso em que expunha os mecanismos de dominação que incidiam especificamente sobre as mulheres negras. A obra é composta por cinco capítulos, que constituem artigos sobre os seguintes temas: sexismo e a experiência da mulher negra escravizada; a desvalorização contínua da mulheridade negra; o imperialismo do patriarcado; racismo e feminismo; mulheres negras e feminismo.
A primeira edição de E eu não sou uma mulher? apresentava a foto da mãe da autora na capa; já a edição utilizada na presente resenha traz o retrato em sua contracapa. No prefácio, bell hooks afirma que o substrato para a escrita da obra foi a relação com sua mãe – que, mesmo não conhecendo teorias feministas, educou a autora e suas irmãs para a liberdade. Tal relação também motivou o estilo da escrita, cujo objetivo maior era o alcance de pessoas de diversas classes, tendo como referência de “público ideal” sua própria mãe. O esforço para compreender as diferenças entre as experiências das mulheres negras e das mulheres brancas fundamentou a produção da obra.
O primeiro capítulo trata das vivências das mulheres negras que foram raptadas e escravizadas. Como as mulheres africanas também contribuíam com a força de trabalho em sua cultura, elas provavelmente foram vistas pelos homens brancos comerciantes de escravizados como o sujeito ideal para a escravidão, uma vez que também era “obedientes” aos homens negros. A autora destaca que, além dos castigos físicos e trabalho excessivo que eram impostos às mulheres e aos homens negros escravizados, a mulher estava sujeita a outro tipo de tortura, não comumente aplicada aos homens, visto que se tratava de uma sociedade patriarcal sexista: o estupro. O sexismo institucionalizado legitimava a exploração sexual das mulheres negras; ele consistia num método de terrorismo para desmoralizar e desumanizar as mulheres escravizadas.
No segundo artigo, bell hooks faz uma análise crítica acerca da desvalorização contínua que a figura da mulher negra sofreu no contexto da sociedade patriarcal racista. A intelectual aponta como a exploração sexual perpetrada contra as mulheres negras reverberou no âmbito político e social, criando uma série de estereótipos depreciativos e negativos, e mitos racistas e sexistas. Tal depreciação constante, mesmo após o fim da escravidão, constituiu uma nova prática opressiva, em que houve um esforço consciente da branquitude para sabotar a construção da autoconfiança e do autorrespeito da mulher negra.
O terceiro artigo, “O imperialismo do patriarcado”, aborda os mecanismos de funcionamento e os impactos do sexismo na vida das mulheres, sobretudo negras. Faz-se interessante a observação da escritora de que o sexismo também é praticado por homens negros, porque tanto estes quanto as mulheres negras não estariam dispostos a reconhecer que o racismo não é a única prática opressora sofrida pela comunidade negra.
Já no penúltimo capítulo, a autora traz a problemática do racismo dentro do movimento feminista. Uma vez que os Estados Unidos foram colonizados a partir de um fundamento imperialista racista, o racismo impediu que se estabelecesse qualquer tipo de conexão entre mulheres negras e mulheres brancas. bell hooks aponta que tanto as primeiras defensoras brancas dos direitos das mulheres quanto as sufragistas não estavam interessadas em igualdade social para todas as mulheres, somente para as mulheres brancas.
O último capítulo realiza um estudo sobre a relação entre as mulheres negras e o feminismo. No início, a autora traz à memória diversas mulheres negras que contribuíram na luta pelos direitos das mulheres nos séculos XIX e XX, tais como Mary Church Terrell e Anna Cooper. São abordados diversos acontecimentos sociais que ocasionaram num afastamento das mulheres negras do feminismo. A escritora não hesita em apontar o oportunismo e egoísmo de algumas mulheres que usam o movimento em benefício próprio e a necessidade de nos espelharmos na mulher negra ativista do século XIX.
Assim, E eu não sou uma mulher? é um livro fundamental para se entender as relações de gênero, classe, raça e práticas opressoras e como elas se configuram atualmente. Apesar de sua escrita leve e acessível, bell hooks traz assuntos densos e que podem ser, caso você também seja uma mulher negra, cruéis. No entanto, faz-se necessária a apropriação desse conhecimento por nós para que possamos ser pessoas livres ou feministas, segundo a concepção da autora: “‘feminista’, em qualquer sentido autêntico do termo, é querer para todas as pessoas, mulheres e homens, a libertação dos padrões de papéis sociais, da dominação e da opressão sexistas”.
(Fonte: letraspretas.com / https://bit.ly/3EePGwp)

Resenhas sobre esta obra:
- CORREIA, Carol. “Não sou eu uma mulher”: mulheres negras na discussão. Disponível em: medium.com / https://bit.ly/3zaVyD6
- Não Sou Eu Uma Mulher? Disponível em: becodaspalavras.com / https://bit.ly/3k6171n

Vídeo-resenhas sobre esta obra:

E eu não sou uma mulher? - bell hooks
(Fonte: canal Alliye - YouTube / https://bit.ly/3kcAaJB)

E eu não sou uma mulher?
(Fonte: canal TV Grabois - YouTube / https://bit.ly/3CdcjQ8)

Eu não sou uma mulher
(Fonte: canal Tempero Drag - YouTube /  https://bit.ly/397ktgw)

E eu não sou uma mulher?, de bell hooks
(Fonte: canal Alguém Viu Meus Óculos? - YouTube / https://bit.ly/3lumGrN)

Entrevista com bell hooks (ative a legenda em português)
(Fonte: canal Gabriela Manna - YouTube / https://bit.ly/3zffgNY)

QUEM É bell hooks?

bell hooks nasceu em 1952 em Hopkinsville, uma cidade rural do estado de Kentucky, no sul dos Estados Unidos. Batizada como Gloria Jean Watkins, adotou o nome pelo qual é conhecida em homenagem à bisavó, Bell Blair Hooks. Formou-se em literatura inglesa na Universidade de Stanford, fez mestrado na Universidade de Wisconsin e doutorado na Universidade da Califórnia. Seus principais estudos estão dirigidos à discussão sobre raça, gênero e classe e às relações sociais opressivas, com ênfase em temas como arte, história, feminismo, educação e mídia de massas. É autora de mais de trinta livros de vários gêneros, como crítica cultural, teoria, memórias, poesia e infantil.
Na infância, estudou em escolas públicas para negros, pois nos Estados Unidos ainda havia escolas que praticavam segregação racial. Na adolescência, quando passou para uma escola integrada, viveu a discriminação de ser minoria numa instituição onde tanto os professores quanto os alunos eram majoritariamente brancos.
De família numerosa — cinco irmãs, um irmão –, pertencente ao que os norte-americanos chamam de classe trabalhadora, bell hooks usou a própria vida, a vizinhança e a escola como fontes dos seus primeiros estudos sobre raça, classe e gênero, sempre buscando nesses três elementos os fatores da perpetuação dos sistemas de opressão e dominação. Seja de brancos contra negros; de homens (mesmo negros) contra mulheres; de ricos contra pobres.
Observadora sagaz da realidade, bell hooks é capaz de escrever palavras que doem como um soco no estômago, mas que são ditas com grande convicção, sinceridade e um estilo inconfundível. Já foi premiada com um The American Book Award, um dos prêmios literários de maior prestígio dos Estados Unidos. Entre as influências da autora, além de Martin Luther King, Malcom X e Eric Fromm, figuram as teorias de educação defendidas pelo brasileiro Paulo Freire.
Foi durante a faculdade que bell hooks começou a escrever seu primeiro livro, Ain’t I A Woman [Eu não sou uma mulher], publicado em 1981. Onze anos depois, o site Publishers Weekly, especialista no ramo de publicação literária, avaliou Ain’t I A Woman como um dos vinte livros mais influentes escritos por mulheres nos vinte anos anteriores.
Assim como outras mulheres negras, hooks apontou que o feminismo mainstream focava em um grupo seleto de mulheres brancas, com ensino superior, de classe média e alta, centradas em ideais românticos de liberdade e igualdade. Ela percebeu que as mulheres negras se encontravam em um dilema: apoiando o movimento feminista, precisavam abdicar das discussões raciais, e lutando pelos direitos civis estavam à mercê do patriarcado que o dominava.
A escritora sofreu uma série de críticas durante a sua carreira, sendo acusada inclusive por outras feministas de não ser “acadêmica o suficiente”. Isso porque hooks não se submetia aos padrões tradicionais da academia, na intenção de tornar o seu trabalho acessível para todos. Daí também seu grande interesse pela educação — sobretudo pela educação das pessoas negras, historicamente privadas da academia.
“Muitas vezes, as feministas brancas agem como se as mulheres negras não soubessem que houve opressão sexista até que elas expressassem o sentimento feminista. Eles acreditam que forneceram às mulheres negras ‘análise’ e ‘o’ programa de liberação”, escreveu bell hooks. “Eles não entendem, nem imaginam, que as mulheres negras, bem como outros grupos de mulheres que vivem diariamente em situações opressivas, muitas vezes se tornam conscientes da política patriarcal de sua experiência vivida à medida que desenvolvem estratégias de resistência — mesmo que isso não seja feito de forma sustentada ou organizada.”
(Fonte: BREDA, Tadeu. Quem é bell hooks?. Disponível em: elefanteeditora.com.br / https://bit.ly/3nxaeKI)

terça-feira, 14 de setembro de 2021

Trilha Antirracista / Sociologia: QUEM TEM MEDO DO FEMINISMO NEGRO?, de Djamila Ribeiro

(Foto: garagembluecult.com)
"O feminismo negro não é uma luta meramente identitária, até porque branquitude e masculinidade também são identidades. Pensar feminismos negros é pensar projetos democráticos." É nesses termos que a filósofa Djamila Ribeiro situa sua produção intelectual, que ela mesma define como indissociável da criação de redes de solidariedade política.

Quem Tem Medo do Feminismo Negro? se inicia com um longo ensaio autobiográfico inédito em que Djamila recupera memórias de sua infância e adolescência para discutir o silenciamento que sempre sofreu. Foi apenas ao trabalhar na Casa de Cultura da Mulher Negra - onde entrou em contato com autoras que a fizeram ter orgulho de suas raízes - que ela enfim deixou de querer se esconder. Desde então, o diálogo com escritoras como bell hooks, Alice Walker, Toni Morrison e Conceição Evaristo é uma constante.

O livro traz também uma seleção de artigos publicados no blog da Carta Capital entre 2014 e 2017, muitos deles reagindo a situações do cotidiano, como os ataques a Maju Coutinho e Serena Williams - a partir dos quais a autora destrincha os conceitos de empoderamento feminino e interseccionalidade e o aumento da intolerância às religiões de matriz africana. Ela ainda aborda temas como os limites da mobilização nas redes sociais, as políticas de cotas raciais e as origens do feminismo negro nos Esta dos Unidos e no Brasil, além de explorar obras de referência para a teoria feminista.

A maneira como trata da noção de lugar de fala, assunto de seu primeiro livro, evidencia a originalidade de sua abordagem. Qualquer um pode, sim, falar sobre opressões, mas, para Djamila, a questão é outra: "Se [apenas] pessoas brancas continuarem falando sobre pessoas negras, não vamos mudar a estrutura de opressão que já confere esses privilégios aos brancos. Nós, negras e negros, seguiremos apartados dos espaços de poder".

OUTRAS RESENHAS SOBRE ESTA OBRA

- MURARO, Cauê. Djamila Ribeiro defende feminismo negro em mesa sobre feminicídio e lembra Marielle Franco: 'racismo institucional'. Disponível em: g1.globo.com / https://glo.bo/3tzLHpm

- PAIVA, Vitor. Djamila Ribeiro: biografia e formação de intelectual negra em dois atos.  Disponível em:  hypeness.com.br / https://bit.ly/3tEXP8I

- MALCHER, Monique e RIAL, Carmem Silvia. Quem Tem Medo do Feminismo Negro? A urgência do debate racial no Brasil. Disponível em: Revista Estudos Feministas – scielo.com.br / https://bit.ly/2YJfyQI

- SILVA, Bianca. Resenha: Quem Tem Medo do Feminismo Negro? Disponível em: queriaestarlendo.com.br / https://bit.ly/3EfVZ2U

- PEREIRA, Ana Luiza G. Minha mãe – Uma mulher negra extremista (?). Disponível em: geledes.org.br / https://bit.ly/2XfLjQy

- Quem Tem Medo do Feminismo Negro? Resenha: Djamila Ribeiro. Disponível em: psicanliseclinica.com / https://bit.ly/3hrSyfA

- Djamila Ribeiro: a filósofa que se tornou uma das principais vozes no combate ao racismo. Disponível em: donna Gente / https://bit.ly/3nqLaVG

VÍDEO-RESENHAS SOBRE ESTA OBRA

Djamila explica sobre quem tem medo do feminismo negro
(Fonte: canal Conversações - YouTube / https://bit.ly/3nuPa7q)

Quem Tem Medo do Feminismo Negro? - Djamila Ribeiro 
(Fonte: canal Trisha Estevan - YouTube / https://bit.ly/394ZN8D)

Quem Tem Medo do Feminismo Negro? - Djamila Ribeiro 
                      (Fonte: canal B de Barbárie - YouTube / https://bit.ly/392qJpL)

Quem Tem Medo do Feminismo Negro? - Djamila Ribeiro
  (Fonte: canal Guilherme Solari Tube - YouTube / https://bit.ly/3k8NBu1)

Quem Tem Medo do Feminismo Negro? - Djamila Ribeiro
 (Fonte: canal Impressões de Maria - YouTube / https://bit.ly/3nwRKtC)

Quem Tem Medo do Feminismo Negro? - Djamila Ribeiro
 (Fonte: canal VRA Tatá - YouTube / https://bit.ly/393890y) 

Entrevista com Djamila Ribeiro falando sobre o feminismo negro
 (Fonte: canal Nexo Jornal - YouTube / https://bit.ly/396dZyi)

Lili Shwarcz entrevista com Djamila Ribeiro
 (Fonte: canal Lili Shwarcz - YouTube / https://bit.ly/3nsdN4R)

QUEM É DJAMILA RIBEIRO?

Djamila Taís Ribeiro dos Santos, nasceu em 01 de agosto de 1980, em Santos, São Paulo. Ela iniciou o contato com a militância ainda na infância. Uma das grandes influências foi o pai, estivador, militante e comunista, um homem que mesmo com pouco estudo formal, era culto. “Desde muito cedo, eu e meus dois irmãos vivemos nesse meio. Com seis anos, já íamos para atos. A gente debatia esses temas em casa, e meu pai nos fazia estudar a história do nosso povo”, relembra.

O movimento feminista entrou na vida da filósofa aos 19 anos, quando conheceu a ONG Casa de Cultura da Mulher Negra, em Santos, onde trabalhou por cerca de quatro anos. Lá teve contato com obras de feministas e de mulheres negras e passou a estudar temas relacionados a gênero e raça.[2] Graduou-se em Filosofia pela Unifesp, em 2012, e tornou-se mestre em Filosofia Política na mesma instituição, em 2015, com ênfase em teoria feminista. Em 2005, interrompeu uma graduação em Jornalismo. Suas principais atuações são nos seguintes temas: relações raciais e de gênero e feminismo.

É colunista online da CartaCapital, Blogueiras Negras e Revista Azmina e possui forte presença no ambiente digital, pois acredita que é importante apropriar a internet como uma ferramenta na militância das mulheres negras, já que, segundo Djamila, a “mídia hegemônica” costuma invisibilizá-las.

Em maio de 2016, foi nomeada secretária-adjunta de Direitos Humanos e Cidadania da cidade de São Paulo durante a gestão do prefeito Fernando Haddad. Escreveu o prefácio do livro “Mulheres, raça e classe” da filósofa negra e feminista Angela Davis, obra inédita no Brasil e que foi traduzida e lançada em setembro de 2015. Participa constantemente de eventos, documentários e outras ações que envolvam debates de raça e gênero. Escreveu os livros: “O que é um lugar de fala?”( o livro aborda a urgência pela quebra dos silêncios instituídos, trazendo também ao conhecimento do público produções intelectuais de mulheres negras ao longo da história), “Quem tem medo do feminismo negro?. E também a “revista observatório itaú cultural”.

(Fonte: ABREU, Carolina. MULHERES EM TODAS AS CORES – DJAMILA RIBEIRO. Disponível em: mulheresnaciencia.com.br / https://bit.ly/3Ab57TY)

sexta-feira, 10 de setembro de 2021

Trilha Antirracista: #PAREM DE NOS MATAR!, de Cidinha da Silva

A questão-motriz deste ensaio é: por que as mortes de pessoas negras e violências raciais contra elas não provocam uma crise ética? O contexto sócio-histórico da pergunta poderia ser o Brasil, a ¹Diáspora Africana, a África ou mesmo o mundo e a resposta não sofreria variações significativas.

A parte mais óbvia do problema é que em decorrência de questões históricas ligadas à exploração de seres humanos por outros, o corpo negro foi constituído como um corpo de menos valor, de fácil reposição, tranquilamente substituível. Um corpo também, mutilado de maneira impune para atender a adestramentos sociais necessários à manutenção do poder explorador. Um corpo ignorado, quando conveniente, para reforçar sua menos-valia por meio da negação da condição de corpo-humano.

Cada um dos três argumentos acima pode ser exemplificado. Vamos então fortalecê-los e torná-los mais nítidos. Ainda no período escravocrata os corpos negros eram punidos, vilipendiados, torturados e mutilados, porque podiam ser substituídos com facilidade. As surras naquele período eram constantes para adestrar os corpos negros, assim como as ameaças policiais de hoje, aos primeiros suspeitos em qualquer situação.

Quanto ao corpo negro ignorado, é fácil percebê-lo na fila de acesso aos locais de arte e cultura, nos quais a maioria dos frequentadores é branca e estes sequer pedem licença a uma pessoa negra para passar à sua frente. Também são desconsiderados os corpos negros de pessoas em situação de rua, mortas pelo frio de São Paulo e tratadas como parte da paisagem urbana, como aquelas que morrem pelo frio mesmo (como se fosse aceitável alguém morrer de frio), “sem sinais de violência no corpo”.

O livro #Parem de nos matar! (Ijumaa, 2016), de minha autoria, documenta em forma de crônicas e textos opinativos, aquilo que não pode ser esquecido e que pretende robustecer uma ética do cuidado das pessoas negras consigo mesmas (por meio do registro crítico de sua memória). Esta é a contribuição da obra em suas 240 páginas e 72 crônicas, para alterar esse estado de coisas.

Trata-se de um livro vivo, em movimento, que frequentemente depara-se com parentes e amigos de pessoas negras assassinadas e/ou desaparecidas e, não raro, esses encontros causam constrangimento e impotência à autora, como aconteceu num curso no SESC Ribeirão Preto (SP). Lá esteve presente a irmã de Luana Barbosa, jovem lésbica negra, morta em decorrência de espancamento perpetrado pela polícia, porque resistiu para não ser revistada por homens. Ou o encontro com Ruth Fiúza, mãe de Davi Fiúza (desaparecido pela PM baiana em 2015 numa periferia de Salvador), em mesa promovida pelas Mães de Maio (SP) na reitoria da Universidade Federal da Bahia (maio, 2017).

A pergunta que arrebenta os miolos é: o que fazer diante das pessoas que sobreviveram a mortes e desaparecimentos tão aviltantes? E a resposta possível até o momento tem sido: prosseguir, via literatura, no exercício de agenciamento de uma produção de sentidos sobre nós mesmos.

Uma agência que não nos deixe esquecer quem somos, de onde viemos e para onde vamos como membros de uma mesma comunidade de destino. Desse modo, Cláudia da Silva Ferreira, arrastada num porta-malas de viatura policial em Madureira (RJ), não é única, não é um caso isolado, somos todas Cláudias. Tanto porque, como mulheres negras, estamos expostas ao mesmo destrato dado a ela, quanto porque todas nós fomos efetivamente arrastadas durante o martírio de Cláudia da Silva Ferreira.

O já mencionado livro, #Parem de nos matar! exigiu abertura de janelas para nuançar sua dureza e para que o leitor pudesse respirar. Fiz isso ao alternar conjuntos de textos que escrutinam situações de violência e extermínio e outros que demarcam de alguma forma a resistência das pessoas-alvo do racismo. [...]

 1. diáspora: dispersão de um povo em consequência de preconceito ou perseguição política, religiosa ou étnica

(Fonte: SILVA, Cidinha. #PAREM DE NOS MATAR! MEMÓRIA DA LUTA DE PESSOAS NEGRAS COMUNS PARA SE MANTEREM VIVAS. Disponível em: omnelick2ato.com / https://bit.ly/3CdV7tV)

Resenhas da obra: 

- CARNEIRO, Sueli. Temas caros aos direitos humanos na crônica de Cidinha da Silva. Disponível em: literafro – letras.ufmg..br / https://bit.ly/3k15KKk

- MOREIRA, Núbia Regina. NÃO NOS CALAREMOS. NÃO MESMO! Disponível em: UFBA - redalyc.org / https://bit.ly/3E3N4kU

- Livro ‘#Parem de nos matar!’ evidencia genocídio da população negra. Disponível em:  geledes.org.br / https://bit.ly/3npUiK7

Vídeo-resenhas da obra: 

Lançamento do livro de Cidinha Silva
(Fonte: canal Jornalistas Livres - YouTube / https://bit.ly/3ttNn3H)

Cidinha da Silva – Encontros de Interrogação (2017) 
A escritora Cidinha da Silva fala sobre o período em que trabalhou na organização Geledés Instituto da Mulher Negra e comenta aspectos de sua obra, que ela diz ser uma tentativa de fazer política pela arte. Com a publicação de seu terceiro livro, Cidinha afirma que passou a exigir mais de sua literatura e a desejar outro tipo de texto. Ao fim da entrevista, lê a crônica Quando a Palavra Seca, do livro #Parem de Nos Matar!.
(Fonte: canal Itaú Cultural - YouTube / https://bit.ly/38UeX0q)

#Parem de nos matar! - Cidinha Silva
(Fonte: canal Letras Pretas - YouTube / https://bit.ly/3hohbd0)

QUEM É CIDINHA SILVA?
CIDINHA DA SILVA é escritora e editora. Graduada em História pela UFMG e doutoranda no DMMDC - Doutorado Multi-Institucional e Multidisciplinar em Difusão do Conhecimento da Universidade Federal da Bahia. Organizadora de Africanidades e relações raciais: insumos para políticas públicas na área do livro, leitura, literatura e bibliotecas no Brasil (obra de referência; Fundação Cultural Palmares, 2014, esgotado) e Ações afirmativas em educação: experiências brasileiras (Summus, 2003, 3a edição) . Tem dezessete livros de literatura publicados, entre eles Um Exu em Nova York, que recebeu o Prêmio Clarice Lispector (categoria contos) da Fundação Biblioteca Nacional em 2019, e #Parem de nos matar! (Kuanza Produções/Pólen Livros, 2019, 2a edição). ?Explosão Feminista?, do qual é co-autora, foi finalista do Prêmio Jabuti (2019), e recebeu o Prêmio Rio Literatura 4ª edição (categoria ensaio). É coautora de cinco livros, entre eles, Colonos e Quilombolas (Edição das autoras, Porto Alegre, 2010). Participa da coletânea Questão de pele, composta por contistas brasileiros que tematizaram o preconceito racial. (Org. Luiz Ruffato, Língua Geral, 2009) com o texto Dublê de Ogum. Tem textos traduzidos em pulicados em alemão, catalão, espanhol, francês, italiano e inglês. É uma das 100 autoras e autores negros, cuja obra foi analisada na coletânea Literatura e Afrodescendência: antologia crítica (Org. Eduardo Assis, Editora UFMG, 2011). Sua fortuna dramatúrgica abarca os textos Sangoma, Engravidei, pari cavalos e aprendi a voar sem asas e Os coloridos. Contabiliza mais de 50 artigos e ensaios envolvendo os temas relações raciais, gênero, juventude e educação, publicados prioritariamente no Brasil, no período de 1992 a 2006, mas também na Itália, Reino Unido, Costa Rica, Uruguai e Estados unidos. Possui centenas de crônicas e artigos de opinião publicados na WEB, em portais, blogues profissionais diversos e principalmente no blogue pessoal
http://cidinhadasilva.blogspot.com.br/ e na Fanpagehttps://www.facebook.com/cidinhadasilvaescritora.

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Trilha Antirracista / Sociologia: O FEMINISMO É PARA TODO MUNDO, de Bell Hooks

"O Feminismo É Para Todo Mundo" foi mais um dos livros que li para a maratona literária #PRETATONA. Seguindo a ideia do título, Bell Hooks tenta nos dar uma narrativa mais acessível sobre o que é feminismo e a importância de levarmos suas políticas a sério. A obra foi originalmente publicada em 2000 e depois relançada em 2018, aqui no Brasil o livro é traduzido pela Ana Luiza Libânio e lançado pela Editora Rosa dos Tempos.

A autora fala sobre cada ponto em que o feminismo toca em nossas vidas. A proposta é clara: todos precisam entender o verdadeiro feminismo para que se juntem ao movimento. Mas como fazer a mensagem chegar em todos? Ela inicia o livro dizendo que uma revolução feminista não se faz sozinha e pontua a necessidade de acabar com o racismo, elitismo e o imperialismo. Dessa forma, homens e mulheres poderão criar um espaço unido.

Nos primeiros parágrafos, Bell fala sobre a confusão das pessoas ao definirem o feminismo. Tudo o que diziam era uma reprodução do discurso da mídia patriarcal, principalmente a falsa mensagem de que o feminismo é um movimento anti-homem. O apagamento de mulheres não brancas dentro do movimento também é bastante colocado durante a narrativa. Mesmo mulheres negras atuando como revolucionárias e aliadas da luta, elas não eram vistas como líderes.

"Estava claro para as mulheres negras que jamais alcançariam a igualdade dentro do patriarcado capitalista de supremacia branca existente"

O livro foi se desenrolando de forma fácil durante a minha leitura, Hooks cita suas vivências para exemplificar grande parte da teoria feminista que ela expõe na obra. Isso para mim é fantástico, pois deixa evidente que ela sabe do que está falando, pois vivenciou grande parte dessas experiências.

Ainda no primeiro capítulo, Bell Hooks faz uma diferenciação entre pensamento revolucionário e o pensamento reformista. O pensamento revolucionário se tornou popular no meio acadêmico e por causa da linguagem difícil não saiu da bolha dos letrados. Uma pena na época, pois esses trabalhos ofereciam uma visão libertadora da transformação feminista e não recebia tanta atenção da imprensa, pois a mesma focou suas energias em falar apenas de igualdade de gênero no mercado de trabalho, esquecendo de dialogar sobre a desigualdade de classe.

Por outro lado, o feminismo na academia permitiu que pensadoras e escritoras ganhassem nota, como por exemplo, Toni Morrison, que não era muito lida na época, mas Bell pôde usá-la como referência em seus trabalhos. O problema mesmo, como já disse ali em cima, foi quando a linguagem da teoria começou a ficar restrita ao grupo acadêmico. As ideias eram visionárias, porém, não alcançavam as pessoas  do lado de fora, o que, de certa forma, enfraquecia o movimento.

"Ensinar pensamento e teoria feminista para todo mundo significa que precisamos alcançar além da palavra acadêmica e até mesmo da palavra escrita"

Bell Hooks também reforça que o feminismo precisa ser presente em nosso dia a dia, para que essas práticas sejam naturalizadas. É preciso ter mais estudos feministas nas coisas que lemos, ouvimos e assistimos. Principalmente na educação infantil, escola e faculdade. Mas não pense que a autora ficou só nisso, ela escreveu com profundidade ao falar que uma pessoa feminista precisa entender o direito reprodutivo da mulher. Mais do que pedir a legalização do aborto, Bell explica o porque precisamos dar condições para mulheres escolherem se querem ou não ter filhos.

"Se educação sexual, medicina preventiva e fácil acesso a métodos contraceptivos forem oferecidos para todas as mulheres, menos de nós teremos gravidez indesejada", ou seja, se a educação sexual de mulheres, ricas ou pobres, fossem uma das prioridades de nossos governantes, menos mulheres ficariam grávidas e menos abortos aconteceriam. É simples. Direito reprodutivo é uma questão de saúde pública, é necessário criar mais políticas que visam proteger a mulher de riscos.

No capitulo "Beleza por dentro e por fora", Bell inicia lembrando de que as mulheres, jovens ou mais velhas, são socializadas para acreditarem que o nosso valor está na aparência, e esse é mais um pensamento sexista.

"A revolução do vestuário e do corpo criada pelas intervenções feministas fez com que mulheres aprendessem  que nossa carne merecia amor e adoração em seu estado natural"

A revolução na indústria da moda, saúde e beleza se deu a partir da luta feminista. No movimento existem mulheres de todos os estilos e gosto, o capitalismo precisou se adequar a isso. Grandes marcas precisam se adequar a essas mudanças ou podem perder para as mulheres que criam seus próprios produtos. É nesta parte que entendemos que as mulheres feministas precisam ocupar todos os espaços, para que sempre tenhamos alternativas. Assim, o movimento se fortifica e mulheres podem continuar consumindo produtos sem praticar o auto-ódio.

"Criticar imagens sexistas sem oferecer alternativas é uma intervenção incompleta"

Há assuntos neste livro que ainda não foram explorados de forma correta dentro da mídia de massa e que seria bastante interessante que mais pessoas falassem sobre. Como por exemplo, os relacionamentos abusivos entre pais e filhos. Quando Bell fala que mulheres também podem ser sexistas e abusivas, é algo certeiro, pois a mídia sempre menciona a desigualdade de gênero e/ou coloca a mulher como sexo frágil, sendo que há muitas mulheres que praticam atos de violência e são sexistas com outras mulheres. Abrir essa discussão nas rodas de conversa abre caminhos para criarmos uma comunidade mais amorosa e mais ciente de seus direitos e deveres.

O progresso no movimento feminista permitiu que as pessoas se atentassem ao fato de que violência doméstica também acontecia em relacionamentos homoafetivos e contra crianças. Focar apenas na violência contra mulher não ajuda o movimento a progredir porque é preciso acabar com TODAS as estruturas de violência. Mulheres também podem ser violentas e perpetuar esses comportamentos através de seus filhos. A partir do momento em que aceitamos o nosso papel dentro desses problemas, conseguimos acabar com eles.

"A violência patriarcal em casa é baseada na crença de que só é aceitável que um indivíduo mais poderoso controle outros por meio de várias formas de força coercitiva"

Aqui nesta resenha eu digitei e digitei, mas ainda não falei nem metade da mensagem de Bell Hooks em "O feminismo é para todo mundo". Recomendo que vocês leiam também para espalhar a mensagem de forma ainda mais acessível. A autora recomenda que façamos como as pessoas que saem batendo nas portas para falar de religião, que possamos dar essa mesma importância ao movimento para que a convivência entre nós melhore.

Ainda que a intenção da autora seja trazer uma linguagem fácil para o seu livro, acredito que ele ainda não é o ideal para alcançar as pessoas de todas as classes. O trabalho ainda é longo. Façam resenhas nos blogs, espalhem folhetos, discuta em seu canal no YouTube e reflita suas atitudes no dia a dia. Deixe que as pessoas perguntem sobre essas perspectivas.

E isso não é só para as mulheres CIS, é para homens CIS e LGBTQI+ também, apesar da Bell Hooks não falar de pessoas TRANS no livro (é algo para se discutir), a proposta serve para todos. Desde o início, o movimento feminista deveria ter trabalhado com alternativas que incluísse o papel do homem na luta contra o sexismo, porém a mídia focou no pequeno grupo anti-homem e só enfraqueceu os ideais revolucionários que beneficiaria todo mundo. Precisamos reverter essa situação!

Assim como ficou claro para mim, eu espero que também fique para vocês: O FEMINISMO É PARA TODO MUNDO.

(Fonte: DOMINGOS, Bruna. Resenha: o feminismo é para todo mundo. Disponível em: leiapop.com / https://bit.ly/3jE8YTL)

Alguns depoimentos sobre esta obra:

Manual simples e necessário
O livro é realmente um manual. Básico, direto, linguagem fácil; como a própria autora diz que gostaria que fosse no início do livro.
bell hooks perpassa o feminismo por diversos outros temas como relação sexual, política e até espiritualidade evidenciando a juventude do movimentos, o quanto ainda temos que aprimora-lo.
A leitura é ótima tanto pra quem já tem noção do assunto quanto pra quem quer começar a aprender sobre ele. (Fonte: beatrizsamogim 19/08/2021 - skoob.com.br / https://bit.ly/38xpu1w)

Didático e completo
"Se qualquer mulher sentir que precisa de qualquer coisa além de si para legitimar e validar sua existência, ela já estará abrindo mão de seu poder de se autodefinir, de seu protagonismo." 
Um livro a se recomendar pra todo mundo que se interesse sobre feminismo. A autora consegue abordar diversos aspectos relacionados ao assunto de uma forma bem clara e didática. Mesmo não sendo tão aprofundado, é muito completo e excelente tanto pra quem quer começar a entender sobre feminismo, quanto pra quem já é bastante engajado. (Fonte: Rebeca Vilela 23/08/2021 - skoob.com.br / https://bit.ly/38xpu1w)

Outras resenhas sobre esta obra:

- O Feminismo É Para Todos: políticas arrebatadoras - Bell Hooks. Disponível em: impressoesdemaria.com.br / https://bit.ly/3kRHE3w

- MIRANDA, Júlia. O feminismo é para todo mundo, ainda bem! Disponível em: azmina.com.br / https://bit.ly/3Bye1es

Um artigo interessante sobre este livro de Bell Hooks. Veja abaixo os tópicos: 

[...]
1. A importância de construir um movimento feminista de massa
2. Quando escrever, partir sempre de uma experiência concreta
3. É um movimento para acabar com o sexismo, a exploração sexista e a opressão
4. Uma revolução feminista sozinha não acabará com a opressão sem acabar com o racismo, o elitismo e o imperialismo
5. Feministas são formadas, não nascem feministas
6. Sem ter homens aliados à luta, o movimento feminista não vai progredir
7. O foco na pauta dos direitos reprodutivos como um todo
8. A maioria das pessoas ainda socializa só com pessoas do seu próprio grupo
9. O fim de todas as formas de violência
10. Não há amor onde há dominação
[...]

- FILGUEIRAS, Mariana. 10 lições do livro "O Feminismo É Para Todo Mundo". Disponível em: hysteria.etc.br / https://bit.ly/3BA03c3

Vídeo-resenhas sobre a obra e entrevista com a escritora:

VLOG e RESENHA "O FEMINISMO é para todo mundo", Bell Hooks
(Fonte: canal Impressões de Maria - YouTube / https://bit.ly/2YhebIN)

RESENHA: O feminismo é para todo mundo, de Bell Hooks
(Fonte: canal Ana Lis Soares - YouTube / https://bit.ly/2WJ5irf)

O Feminismo É Para Todo Mundo, políticas arrebatadoras, Bell Hooks
(Fonte: canal Trama Literária - YouTube /https://bit.ly/3yMjxIt)

NÃO É FICÇÃO: O feminismo é para todo mundo, de Bell Hooks
(Fonte: canal Litera Tamy - YouTube / https://bit.ly/3kV3xiH)

O feminismo negro de Bell Hooks e seus diálogos com o Brasil
(Fonte: canal Fundação Rosa Luxemburgo Brasil e Paraguai - YouTube / https://bit.ly/3n1uKmq)

Livros da Bell Hooks - Como enxergar o opressor dentro de nós
(Fonte: canal Senhor dos Livros - YouTube /  https://bit.ly/2YfkY5K)

Entrevista completa com Bell Hooks legendada em português
(Fonte: canal Gabriela Manna - YouTube / https://bit.ly/3BFSQXS)

QUEM É bell hooks?

(Foto: geledes.org.br)
Gloria Jean Watkins (nascida em Hopkinsville, Kentucky/EUA, em 25 de setembro de 1952), mais conhecida pelo pseudônimo bell hooks (escrito em minúsculas) é uma autora, professora, teórica feminista, artista e ativista antirracista estadunidense.

O nome "bell hooks" foi inspirado na sua bisavó materna, Bell Blair Hooks. A letra minúscula pretende dar enfoque ao conteúdo da sua escrita e não à sua pessoa. O seu objetivo, porém, não é ficar presa a uma identidade em particular, mas estar em permanente movimento.

hooks publicou mais de trinta livros e numerosos artigos acadêmicos, apareceu em vários filmes e documentários, e participou de várias palestras públicas. Sua obra incide principalmente sobre a interseccionalidade de raça, capitalismo e gênero, e aquilo que hooks descreve como a capacidade destes para produzir e perpetuar sistemas de opressão e dominação de classe. hooks tem uma perspectiva pós-moderna e influenciada pela pedagogia crítica de Paulo Freire.

Em 2014, fundou o bell hooks Institute com sede no Berea College, em Berea, Kentucky.

Biografia

Gloria Jean Watkins nasceu em Hopkinsville, numa pequena cidade segregada no Kentucky. Vem de uma família afro e nativa americana de classe trabalhadora: o pai, Veodis Watkins, trabalhava como porteiro e a mãe, Rosa Bell Watkins, como empregada doméstica em casas de famílias brancas. O casal teve seis filhos: 5 raparigas e 1 rapaz.

hooks foi educada em escolas públicas segregadas racialmente, nas quais, segundo ela, foi possível experimentar a educação como a prática de sua liberdade. Aos 10 anos começa a escrever os seus primeiros poemas.

Ao fazer a transição para uma escola integrada, onde professores e alunos eram predominantemente brancos, hooks enfrentou grandes adversidades.

Depois de ter frequentado a Escola Secundária de Hopkinsville, em Hopkinsville, Kentucky, foi-lhe oferecida uma bolsa de estudo para concretizar a sua licenciatura em inglês na Universidade de Stanford em 1973. Começa a escrever Não Serei Eu Mulher? aos 19 anos, ao mesmo tempo em que trabalha como operadora de telefone. Fez mestrado em inglês na Universidade de Wisconsin-Madison, em 1976.

Em 1983, após vários anos de ensino e escrita, concluiu o seu doutoramento em literatura na Universidade da Califórnia, Santa Cruz, com uma dissertação sobre a autora Toni Morrison.

(Foto: wikipedia.org)
Percurso

A sua carreira de professora começou em 1976 como professora de Inglês e professora sénior de Estudos Étnicos na Universidade do Sul da Califórnia, depois de terminado o doutoramento em literatura inglesa. Durante os anos que leccionou nesta Universidade, Golemics, uma editora de Los Angeles, publicou a sua primeira obra, um livro de poemas intitulado "And There We Wept" (1978), escrito sob o pseudónimo de "bell hooks".

Ensinou em várias instituições pós-ensino secundário no início dos anos 80 e 90, incluindo a Universidade da Califórnia, Santa Cruz, Universidade do Estado de São Francisco, Yale, Oberlin College e City College of New York. Em 1981, a South End Press publicou o seu primeiro trabalho principal, "Ain't I a Woman? Black Women and Feminism", escrito anos antes quando era uma estudante universitária. A seguir à publicação de "Ain't I a Woman?" ganhou um reconhecimento generalizado pela contribuição para o pensamento feminista.

Depois de ter ocupado vários cargos na Universidade da Califórnia em Santa Cruz, Califórnia, no início da década de 1980, aceitou o cargo para lecionar Estudos Afro-Americanos na Universidade de Yale em New Haven, Connecticut. Em 1988 entrou para o corpo docente de Oberlin College, em Ohio, para em Estudos sobre as Mulheres.

Quando começou a trabalhar no City College de Nova Iorque em 1995, hooks mudou-se para a editora Henry Holt e saiu da Killing Rage.

(Fonte: wikipedia.org / https://bit.ly/3jERV3V)

Outras biografias sobre a autora:

- Biografia e idéias de bell hooks. Disponível em psicanaliseclinica.com / https://bit.ly/3kTzbgm

- ALMEIDA, Mariléa. bell hooks. Disponível em: Mulheres na Filosofia -  blogs.unicamp.br / https://bit.ly/3zHxKYA

- JACOB, Paula. A importância dos livros de bell hooks nas livrarias brasileiras. Disponível em: casavogue.globo.com / https://glo.bo/38A4kzQ 

- BREDA, Tadeu. Quem é bell hooks? Disponível em: elefanteeditora.com.br / https://bit.ly/3kLR3d4

ANO 2024 - Bem-vindos!

CARDÁPIO DO MÊS - Abril 2024

O projeto CARDÁPIO DO MÊS tem por objetivo chamar a atenção dos usuários da Sala de Leitura para determinadas obras que a cada mês são sel...