quinta-feira, 19 de agosto de 2021

Trilha Antirracista / Literatura: HEROÍNAS NEGRAS BRASILEIRAS EM 15 CORDÉIS, de Jarid Arraes

A obra Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis, de Jarid Arraes, publicada em 2017, traz à luz as histórias destas representantes negras que a historiografia brasileira corrente colocou no esquecimento. Este ato é bastante recorrente em nosso país, pois quer demonstrar que estar à margem e lutar por seus direitos é vergonhoso. Mas em Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis, a autora abarca momentos distintos da história do Brasil em que estas mulheres estiveram ocultadas e destaca como a participação das mesmas nos eventos foi decisiva para alcançar os objetivos.

Na contracapa do livro, Jarid Arraes, nos fala algo muito tocante no que se refere ao nosso passado que se faz presente, que é não conhecermos os feitos destas várias mulheres negras que tiveram um papel histórico. Com isso, surge um dos motivos pelos quais resolve não só pesquisar suas vidas como dar-lhes voz em forma de cordéis, a fim de que cheguem a vários lugares, como a escritora mesmo assevera : “este projeto já está presente até nas bibliotecas de países estrangeiros, mas principalmente nas escolas brasileiras”.

As lutas pelo fim da escravidão, pela educação, e pelo ato de escrever, entre outros, nos séculos de vivência destas mulheres são exemplos que se corporificam nos cordéis de Arraes. A educação é uma marca feita na carne que muito impulsionou estas figuras históricas brasileiras (naturais ou naturalizadas). Em muitos dos cordéis, a educação foi o meio de se libertar e lutar por seus direitos. Assim, no texto dedicado a Antonieta de Barros (e em outros), as palavras de Jarid apontam para um memorialismo biográfico onde a possibilidade de aprender auxiliou na percepção desta mulher como um sujeito capaz de vociferar todas as suas angústias e mazelas. Um momento representativo é quando Arraes escreve: “Antonieta então fundou/ um curso particular/ Onde ensinou por toda sua vida como muito acreditou.” (p. 18). Não se pode afirmar que as vidas destas personagens foram marcadas pelo imobilismo, ao contrário, o dinamismo estava em sua própria essência destas, já que sua condição as obrigava a uma contínua e permanente mobilização.

A escritora Jarid, além de trazer as figuras destas mulheres, faz um trabalho com a memória das heroínas escolhidas, pois desnudá-la nos possibilita rememorar um passado feminino que marcou e marca nossa identidade. Os textos "jaridianos" nos fornecem um ponto de referência que estrutura nossa memória e a memória de uma coletividade, como enfatiza Michael Pollak, em seu texto “Memória, esquecimento, silêncio”, 1989, em que quando relembramos datas, festividades e personagens históricos, estes se tornam “lugares de memória”, conforme também teoriza Pierre Nora.

A leitura desta obra partindo da noção de “lugares de memória” é uma estratégia estético-conceitual para que temas como resistência, liberdade, escravidão, escrita/escrever, política, memória, religião afro e música venham a se revelar dentro de um ambiente primordialmente hostil, assim permitindo que se os questione e os discuta criticamente ao mesmo que provoca incômodo nos leitores. As violações a que estas mulheres (e tantas outras) foram submetidas apenas poderão ser compreendidas quando se contar e recontar das mais diversas formas, (aqui pensando nas modalidades textuais – poemas, romance, crônicas, contos, filmes, teatro, músicas, performances e etc.) porque será no contínuo que o termo “lugar”, de Pollak, se fará útil.

Ler Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis é tornar estas mulheres “lugares de memória”; mostrar quem foi Luiza Mahin, mulher africana vinda da Costa da Mina, que participou de grandes lutas, como a revolta dos Malês, em 1835 e Sabinada 1837. Luiza Mahin irá nos mostrar que a luta e a resistência contra a escravidão é algo que está no sangue, pois deu a luz ao poeta e um dos grandes abolicionistas brasileiros – Luiz Gama. [...]

(Fonte: Literafro – UFMG/Letras / https://bit.ly/2VZDRsR - resenha completa)

Mais informações sobre a autora e suas obras:

- BIANCA, Elias. Escritora Negra Jarid Arraes Fala Sobre Suas Obras e a Influência Nordestina. Disponível em: afreaka.com.br / https://bit.ly/3yWWMCJ

Vídeo-resenhas

Entrevista com Jarid Arraes na APPtv
(Fonte: canal APPtv - YouTube / https://bit.ly/3sBUQgK)

Heroínas Negras Brasileiras em 15 Cordéis
(Fonte: canal Banca Tatuí - YouTube / https://bit.ly/3z6s4aa)

Heroínas negras brasileiras em 15 cordéis
(Fonte: canal Maria Angélica de Oliveira Paula - YouTube / https://bit.ly/2UE6Rpm)

Leitura do cordel "Teresa de Benguela" 
(Fonte: canal Maria Angélica de O. Paula - YouTube / https://bit.ly/3swDFgi)

Quem é Jarid Arraes?

(Fonte: arquivo pessoal)

ARID ARRAES nasceu em Juazeiro do Norte, na região do Cariri (CE), em 1991. Escritora, cordelista e poeta, é autora de Heroínas negras brasileiras: em 15 cordéis (Seguinte, 2020); Redemoinho em dia quente (Alfaguara, 2019), vencedor do prêmio APCA e do prêmio Biblioteca Nacional na categoria contos/crônicas; e As lendas de Dandara (Editora de Cultura, 2016). Atualmente vive em São Paulo, onde criou o Clube de Escrita para Mulheres. Tem mais de setenta títulos publicados em literatura de cordel, incluindo a coleção Heroínas Negras na História do Brasil.

(Fonte: companhiadasletras.com.br / https://bit.ly/3ghWHCm)

quarta-feira, 18 de agosto de 2021

Trilha Antirracista / Literatura: INSUBMISSAS LÁGRIMAS DE MULHERES, de Conceição Evaristo

‘Insubmissas lágrimas de mulheres’, de Conceição Evaristo

Procurando uma autora brasileira e contemporânea pela internet achei uma lista que trazia o nome de Conceição Evaristo. Era meio do ano e o “Leia Mulheres PG” tava montando sua programação semestral. Na lista que visitei tinha especificamente o livro “Insubmissas lágrimas de mulheres” – hoje me pergunto o por quê ao considerar que a autora ganhou um Jabuti com “Olhos d’água” (informação que só tive depois) – e achei esse título atraente.

Li um pouco sobre o que se tratava a obra e a coloquei na lista de livros para discutirmos no clube da leitura. A escolha foi despretensiosa e eu não sabia o que me esperava. Quando abri o livro senti um soco no estômago e um nó na garganta. Soube no primeiro dos treze contos que os temas de escrita da Conceição seriam pesados e que eu precisava me preparar pro que viria. Acredito que o que mais doía era pensar que, por mais que o livro seja categorizado como ficcional, várias mulheres brasileiras passam por situações similares, quando não piores.

Foram treze histórias. Treze vidas de mulheres que passaram pela minha mão. Treze vidas brasileiras. Vidas negras e periféricas das quais nunca tive contato dada minha classe e por ser branca. Treze mulheres com suas insubmissas lágrimas que sobrevivem a dura realidade de ser mulher, de ser negra, de ser da periferia do Brasil. Que sobreviveram à violência doméstica, estupro, machismo, falta de reconhecimento e aceitação, ao suicídio, ao racismo e tantas outras coisas que tornam a vida mais difícil de suportar – a injustiça escancarada.

Por vezes me peguei chorando, com o livro fechado, numa mistura de raiva, afeto e desilusão. Mas era justamente a não desistência dessas mulheres que me impulsionava para continuar a minha leitura. Acho curioso quando dizem que mulheres são fortes. Parece que é como se elas tivessem escolhido ser assim e não fossem obrigadas pelo meio, por suas condições a serem fortes. Às vezes me pergunto se já foi dada a chance uma uma mulher poder ser fraca. Acredito que não. O “sexo frágil” é na verdade o “sexo forte”. Forte para existir, forte para sobreviver.

Bom, nem só de temas pesados o livro é feito. Histórias de mulheres inspiradoras que tiveram conquistas de sonhos e de suas vontades também são contadas. Há uma mulher artista que se usa de matéria-prima, uma mulher bailarina que enfrenta preconceitos para conseguir viver da dança, uma mulher que ama de uma forma tão única que é impossível não se encantar com sua história… Enfim, Conceição captura vidas e captura também quem lê.

A autora conta as histórias com muita sensibilidade e respeito pelas personagens. Ela se mostra no livro como a observadora e “escutadora” que é e traz traços de certas vivências em outras, o que nos evidencia uma percepção atenta e zelosa. Outra característica que considero significativa no livro é que os treze contos têm como títulos apenas os nomes das mulheres protagonistas das histórias – e de suas vidas. Não sei se haveria jeito melhor de intitular um texto assim – focado numa vida, leve quanto a linguagem, poético, simples e real – do que usando um dos recursos que conhecemos que mais se aproxima – por vezes – da definição de uma pessoa: seu nome.
(Fonte: passaroliberto.home.blog / https://bit.ly/3CUt7MS)

“Um livro que dá VOZ a quem nem sempre é OUVIDO
Um dos pontos que marcam esse livro é a narradora que percorre todos os contos - em cada conto há a história de uma mulher negra como centro. Esse livro me fez chorar, refletir e ter um pouquinho de esperança. O racismo está presente em todos os contos, então se este for um tema sensível para vc, talvez não seja uma boa escolha, além de outras violências sofridas pela população negra, em especial, as mulheres negras.
Mas de uma forma geral, eu queria que todo mundo pudesse conhecer o poder de narração da Conceição, já li 4 livros dela e pelo menos, pra mim, beiram a perfeição.
É uma das maiores vozes da contemporaneidade.”
(Fonte: skoob.com.br / https://bit.ly/3iZoObj)

“Conceição Evaristo escreve com uma sensibilidade ímpar. A forma como autora conta as histórias das mulheres, com uma escrita que versa com o a oralidade, faz com que cada narrativa se torne um universo, os quais me emocionaram profundamente. Apesar das histórias serem, em sua maioria, tristes ou difíceis, o que mais me marcou no texto não é a violência sofrida, mas uma certa esperança. Esperança essa calcada na força e na união das mulheres insubmissas. Este, talvez seja, um dos livros mais lindos que já li.”
(Fonte: skoob.com.br / https://bit.ly/3iZoObj)

Outras resenhas desta obra:

- MATTOS, Gabriela. Em livro de contos, Conceição Evaristo reúne histórias de mulheres negras. Disponível em: pitayacultural.com.br / https://bit.ly/3z2bgkW

- VIEIRA, Nany Kipenzi. Conceição atiça em "Insubmissas Lágrimas de Mulheres". Disponível em: pipoca.com.br / https://bit.ly/3AQ8cJ0

Vídeo-resenhas desta obra:

Insubmissas Lágrimas de Mulheres, de Conceição Evaristo
(Fonte: canal Vamulê! - YouTube / https://bit.ly/3CTFIQB)

Contação de Histórias para Adultos / Insubmissas Lágrimas de Mulheres
(Fonte: canal Edra Moraes - YouTube / https://bit.ly/3sr4uT4)

Insubmissas Lágrimas de Mulheres, de Conceição Evaristo
(Fonte: canal Aline Aimee - YouTube / https://bit.ly/3sr4uT4)

Insubmissas Lágrimas de Mulheres
 
(Fonte: canal Ana dos Santos - YouTube / https://bit.ly/3srfGPP)

Clube de Leitura Racial - Insubmissas Lágrimas de Mulheres
(Fonte: canal Unibes Cultural - YouTube / https://bit.ly/3yYy19n)

Entrevistas com Conceição Evaristo

A “escrevivência” na literatura feminina de Conceição Evaristo
(Fonte: canal TV PUC - Rio - YouTube / https://bit.ly/3stRXOS)

LITERAFRO - entrevista com Conceição Evaristo
(Fonte: canal TV UFMG - YouTube / https://bit.ly/3gapW9V)

Encontros de Interrogação (2015) - qual é o processo de criação de Conceição Evaristo e suas opiniões e concepções sobre literatura
(Fonte: canal Itaú Cultural - YouTube / https://bityli.com/fTMfv)

Conheça a história da escritora Conceição Evaristo
(Fonte: canal TV Aparecida - YouTube / https://bit.ly/2UuZUXB)

QUEM É CONCEIÇÃO EVARISTO?

Maria da Conceição Evaristo de Brito é uma notável professora e escritora brasileira contemporânea sendo especialmente ativa nos movimentos pela luta negra. A autora, que publica poemas, ficção e ensaios, nasceu no dia 29 de novembro de 1946 em Belo Horizonte, Minas Gerais.

A origem familiar de Conceição Evaristo
Filha de Joana Josefina Evaristo, Conceição teve pouco contato com o pai, tendo sido criada pela mãe, uma lavadeira, e pelo padrasto (Aníbal Vitorino), que era pedreiro, numa comunidade da Avenida Afonso Pena.
A autora cresceu na companhia de três irmãs filhas do mesmo pai e da mesma mãe (Maria Inês, Maria Angélica e Maria de Lourdes) e dos cinco irmãos filhos do novo relacionamento da mãe com o padrasto.
Quando a menina tinha sete anos foi viver com a tia, Maria Filomena da Silva, a irmã mais velha da mãe, que também era lavadeira e o tio, Antonio João da Silva, que era pedreiro. O casal não tinha filhos.
Aos oito anos, Conceição começou a trabalhar como empregada doméstica.

Formação escolar de Conceição Evaristo
A menina, assim como os irmãos e os pais, sempre estudou em escolas públicas.
O curso de professora primária tirou no Instituto de Educação de Minas Gerais.

A formação acadêmica de Conceição Evaristo
Mais tarde, concluiu um mestrado em Literatura Brasileira pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro defendendo a dissertação Literatura Negra: uma poética de nossa afro-brasilidade (1996).
A seguir fez o doutorado em Literatura Comparada pela Universidade Federal Fluminense tendo defendido a tese Poemas malungos, cânticos irmãos (2011).
Em 1973, Conceição Evaristo se mudou para o Rio de Janeiro. Lá se formou em Letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro.

A carreira de Conceição Evaristo
Conceição deu os seus primeiros passos profissionais atuando como docente em escolas do ensino público do Rio de Janeiro.
Como autora, o seu percurso se iniciou durante a década de 90 tendo publicado obras dos mais variados gêneros literários: desde poesia, passando pela ficção e também pelo ensaio.
Algumas das suas obras já foram traduzidas para o francês. Em 2018 venceu o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais.
Atualmente dá aulas como professora visitante na Universidade Federal de Minas Gerais.

Principais obras publicadas de Conceição Evaristo

  • Ponciá Vicêncio (romance, 2003)
  • Becos da Memória (romance, 2006)
  • Poemas da recordação e outros movimentos (poesia, 2008)
  • Insubmissas lágrimas de mulheres (contos, 2011)
  • Olhos d'água (contos, 2014)
  • Histórias de leves enganos e parecenças (contos e novela, 2016)
  • Canção para ninar menino grande (romance, 2018)
(Fonte: ebiografia.com / https://bit.ly/3xV9SiF)

Trilha Antirracista / Literatura: OLHOS D'ÁGUA, de Conceição Evaristo

Olhos D’Água, de Conceição Evaristo | Resenha
Qual a porcentagem de livros escritos por mulheres na lista de suas últimas leituras? Qual foi a última obra nacional que você leu? E a última escrita por alguma autora ou autor negro? Hoje eu presto muita atenção na hora de escolher minhas leituras. Tento fazer minha parte para garantir uma diversidade e representatividade dos autores e das temáticas lidas. Comece a prestar atenção nisso também!
De origem periférica e pobre, Conceição Evaristo é mestre e doutora em Literatura e, na minha opinião (e de muita gente), é um dos principais nomes da literatura contemporânea nacional. Mas, acima de tudo, Conceição Evaristo é um símbolo de representatividade na literatura. É porta-voz de questões sociais que, apesar de serem muito presentes no dia a dia das classes menos privilegiadas, são pouco faladas e, menos ainda, compreendidas. Quando me perguntam qual o principal benefício da leitura, eu não tenho dúvidas na hora de responder: com os livros eu consigo me colocar no lugar do outro; enxergar problemas e situações a partir da perspectiva de alguém que vive em circunstâncias completamente diferentes das minhas. Aprendo a respeitar o diferente, ser mais empático e ter mais compaixão.
A leitura de “Olhos d’água” confirmou mais uma vez essa minha opinião. Essa coletânea de contos me despertou reflexões sobre a condição do ser humano, sobre as tristezas diárias que passam despercebidas ao nosso redor. Conceição Evaristo consegue transmitir ao leitor de forma sensível e perfurante a realidade do ser humano silenciado. “Estão presentes mães, muitas mães. E, também, filhas, avós, amantes, homens e mulheres” em sua condição mais vulnerável.
Com contos curtos, a autora também revela um domínio incrível sobre as emoções e as dificuldades presentes na miséria e marginalização. A escrita também se destaca pela sua oralidade e crueza, servindo como uma ferramenta mais eficaz para atingir a nós leitores. Uma leitura que não apenas recomendo, mas que entendo ser necessária!
(Fonte: booksterpp.com.br / https://bit.ly/3CR62Lb)

Outras resenhas sobre a obra:
- CRUZ, Adélcio de Souza. Revelações de Olhos d'Água. Disponível em: Literafro / https://bit.ly/2W5tyCU)
- VASCONCELLOS, Andressa. [Resenha] Olhos D'Água, Conceição Evaristo. Disponível em: medium.com / https://bit.ly/3CVsWA

Vídeo-resenhas sobre a obra:
           Olhos D'Água, de Conceição Evaristo / Literatura Brasileira
                             (Fonte: canal 1984 Livros - YouTube / https://bit.ly/3k1zoxC)

  Olhos d'água (Conceição Evaristo) | VESTIBULAR | Tatiana Feltrin
(Fonte: canal tatianagfeltrin - YouTube / https://bit.ly/3gbQfNc)

PARA ENTENDER: OLHOS D'ÁGUA - CONCEIÇÃO EVARISTO
(Fonte: canal trollendo / https://bit.ly/3gbjkZ5)


QUEM É CONCEIÇÃO EVARISTO?
Maria da Conceição Evaristo de Brito nasceu em 29 de novembro de 1946, em Belo Horizonte (MG). Foi a segunda de nove irmãos. Teve a infância e a adolescência marcadas pela miséria, na extinta favela do Pindura Saia, na região centro-sul da capital mineira. Trabalhou como babá e faxineira enquanto cursava os estudos secundários, aspirando à carreira de professora, mas quando concluiu o curso normal, não conseguiu emprego em Belo Horizonte.

Não havia, na época, concursos para professores em Minas Gerais: aulas, só para quem fosse indicado. Assim, Conceição mudou-se, em 1973, para o Rio de Janeiro, onde se graduou em Letras pela UFRJ e seguiu carreira no magistério, lecionando na rede pública fluminense até aposentar-se no ano de 2006.

Sua estreia na literatura aconteceu no ano de 1990, quando seis de seus poemas foram incluídos no volume 13 da coletânea Cadernos Negros, publicação literária periódica que teve início em 1978, com o intuito de veicular a cultura e a produção escrita afro-brasileira, seja na forma da prosa, seja na forma da poesia.

Conciliando os trabalhos na docência, na literatura e na produção de estudos teóricos, Conceição Evaristo titulou-se como mestra em Literatura Brasileira pela PUC-Rio, em 1996, com a dissertação Literatura Negra: Uma Poética de Nossa Afrobrasilidade e depois como doutora em Literatura Comparada na UFF, defendendo, em 2011, a tese Poemas malungos, cânticos irmãos, em que analisou a poesia dos afro-brasileiros Nei Lopes e Edimilson de Almeida Pereira e a do angolano Agostinho Neto.

Autora de contos, poemas e romances, parte deles traduzida para o inglês e o francês, além de vasta obra teórica, Conceição Evaristo foi finalista do prêmio Jabuti em 2015 e contemplada, em 2018, com o Prêmio de Literatura do Governo de Minas Gerais pelo conjunto de sua obra, sendo reconhecida como uma das mais importantes escritoras brasileiras da contemporaneidade.

“Antes de lerem nossos textos já fazem um pré-julgamento, ou dizem que a autoria negra é uma autoria de militância. Mas é preciso conhecer os textos. Peço muito para as pessoas que não leiam apenas minha biografia, porque ela é importante sim, porque ela contamina meu texto, mas por favor leiam meu texto” [...]

Escrevivências
O minucioso trabalho literário de Conceição Evaristo é marcado pelo uso da  metalinguagem e da junção de vocábulos que geram novas palavras e novos significados. Sua invenção com a palavra volta-se sempre para a ancestralidade, raiz que recupera o passado e o entrelaça com a projeção ao futuro, fazendo brotar novos significados – lexicais e para além do texto.
Os temas ficcionais e poéticos da autora são diversos, mas a poética de Evaristo é conduzida principalmente pelo eu-lírico e personagens de mulheres negras. A autora cunhou o termo “escrevivências” para nomear seu procedimento narrativo: misturando invenção e fato. “Escreviver” é contar, a partir de uma realidade particular, uma história que aponta para uma coletividade.
Segundo ela, “o sujeito da literatura negra tem a sua existência marcada por sua relação e por sua cumplicidade com outros sujeitos. Temos um sujeito que, ao falar de si, fala dos outros e, ao falar dos outros, fala de si”.
(Fonte: brasilescola.uol.com.br / https://bit.ly/3maooRe)

terça-feira, 17 de agosto de 2021

Trilha Antirracista / Literatura: ÚRSULA, de Maria Firmina dos Reis

ÚRSULA, de Maria Firmina dos Reis

Úrsula é considerado um dos primeiros romances abolicionistas e o primeiro escrito por mulher na literatura brasileira. Nele, Maria Firmina consegue pegar um típico enredo e recheá-lo de críticas e análises sociais, fazendo isso do ponto de vista negro e feminino. Fique conosco para saber tudo sobre o resumo de Úrsula de Maria Firmina!
[...]
Úrsula é uma obra icônica desde sua origem: é considerado o primeiro romance escrito por uma mulher, no Brasil. Além disso, também é um romance precursor da temática abolicionista, pois é anterior até mesmo à poesia de Castro Alves.
Ainda pode ser visto como o primeiro romance da literatura afro-brasileira, cujo conceito é: produção de autoria afrodescendente que retrata o negro a partir de uma perspectiva interna. Isso porque Maria Firmina nasceu filha de um branco com uma negra, sendo, portanto, afrodescendente.
A autora, sabendo de sua posição social no século XIX, já diz logo no prólogo do livro:
“Pouco vale este romance, porque escrito por uma mulher, e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e conversação dos homens ilustrados.”
Também por este motivo, na obra original, ela publicou utilizando o pseudônimo “uma maranhense”.

Análise geral da obra

Pela primeira vez na nossa literatura houve uma narrativa tão crítica e realmente vivida. Por ser afrodescendente e estar num contexto anterior à Lei Áurea, a autora soube expor o que ela e sua família sentiram e viveram. Até então, só havia produções de brancos falando sobre os negros.
Apesar de a “heroína” ser branca, a narrativa traz essa visão realística sobre a escravidão e há, dentre os principais personagens, uma tríade de negros com uma participação bem pensada. O trio começa atuando pontualmente e de forma discreta, depois vai crescendo e ganhando representatividade até que, ao final, o leitor já está completamente envolvido por eles e seus feitos.
Além disso, os integrantes estão presentes em cenas que falam muito: no primeiro capítulo “Duas Almas Generosas”, a escritora confronta a ideia vigente na época de que o negro era ruim por natureza. Também retrata elementos da cultura negra como sinônimo de algo forte e bom.
[...]
(Fonte: beduka.com/blog  / https://bit.ly/3yQYKo1)

Abaixo você pode ler mais sobre esse livro:

- ROSA, Soraia R. B. Um olhar sobre o romance Úrsula, de Maria Firmino dos Reis. Disponível em: Literafro / https://bit.ly/37N9yYI)

Vídeo-resenhas:


Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
(Fonte: canal Ler Antes de Morrer - YouTube / https://bit.ly/3gcCei6)

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis - O Livro Inaugural da Literatura Brasileira
(Fonte: canal Se Liga - ENEM e Vestibulares - YouTube / https://bit.ly/3ga3CgZ)

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis
(Fonte: canal Literature-se - YouTube / https://bit.ly/3yYEqRY)

Úrsula, de Maria Firmina dos Reis - Resumo, análise e comentários
(Fonte: canal Literatura e Mundo - YouTube / https://bit.ly/3AJuVGy)

Vídeo-biografia:

Biografia: Maria Firmina dos Reis

(Fonte: canal Lili Shwarcz - YouTube / https://bit.ly/3AQsrGo)

Quem foi Maria Firmina dos Reis?

Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís do Maranhão, em 11 de março de 1822. Entretanto, seu batismo ocorreu apenas em 21 de dezembro de 1825, constando na certidão sua condição de "filha natural" de Leonor Felippa dos Reis e estando ausente do documento o nome de seu pai (ADLER, 2017). Afrodescendente nascida fora do casamento e vivendo num contexto de extrema segregação racial e social, aos cinco anos ficou órfã e teve que se mudar para a vila de São José de Guimarães, no município de Viamão, situado no continente e separado da capital pela baía de São Marcos. O acolhimento na casa da tia materna teria sido crucial para a sua formação (Mott, 1988).

Formou-se professora e exerceu, por muitos anos, o magistério, chegando a receber o título de "Mestra Régia". Em 1847, com vinte e cinco anos, Reis vence concurso público para a Cadeira de Instrução Primária na cidade de Guimarães-MA, conforme registra seu biógrafo Nascimento Morais Filho (1975). E, ainda segundo este autor, ao se aposentar, no início da década de 1880, funda, na localidade de Maçaricó, a primeira escola mista e gratuita do Maranhão e uma das primeiras do País. O feito causou grande repercussão na época e por isso foi a professora obrigada a suspender as atividades depois de dois anos e meio.

A escritora foi presença constante na imprensa local, publicando poesia, ficção, crônicas e até enigmas e charadas. Segundo Zahidé Muzart (2000, p. 264), “Maria Firmina dos Reis colaborou assiduamente com vários jornais literários, tais como A Verdadeira Marmota, Semanário Maranhense, O Domingo, O País, Pacotilha, O Federalista e outros”. Além disso, teve participação relevante como cidadã e intelectual ao longo dos noventa e cinco anos de uma vida dedicada a ler, escrever, pesquisar e ensinar. Atuou como folclorista, na recolha e preservação de textos da cultura e da literatura oral e também como compositora, sendo responsável, inclusive, pela composição de um hino em louvor à abolição da escravatura.

A escritora trouxe a público três narrativas de ficção: Úrsula, de 1859, seguramente o primeiro romance publicado por uma mulher negra em toda a América Latina - e primeiro romance abolicionista de autoria feminina da língua portuguesa -, no qual aborda a escravidão a partir do ponto de vista do Outro; Gupeva, de 1861, narrativa curta de temática indianista, publicada em capítulos na imprensa local, com várias edições ao longo da década de 1860; e o conto "A escrava", de 1887, texto abolicionista empenhado em se inserir como peça retórica no debate então vivido no país em torno da abolição do regime servil.


Já seu volume de poemas Cantos à beira-mar, cuja primeira edição é de 1871, traz textos marcados por forte inquietação e por uma subjetividade feminina por vezes melancólica diante da realidade oitocentista marcada pelos ditames do patriarcado escravocrata e representada como problema perante a sensibilidade da autora.

Maria Firmina dos Reis faleceu em 1917, pobre e cega, no município de Guimarães-MA. Infelizmente, muitos dos documentos de seu arquivo pessoal se perderam e até o momento não se tem notícia de nenhuma imagem sua digna de credibilidade. A propósito, circula na internet uma foto da escritora gaúcha Maria Benedita Borman, pseudônimo "Délia", como se fosse da autora maranhense. A escultura reproduzida nesta página foi elaborada a partir de retrato falado colhido pelo biógrafo da autora.

Em 2017, por ocasião do centenário da morte de Firmina, seus livros foram relançados: Úrsula, já na sétima edição, trazendo em apêndice o conto "A Escrava", de 1887; Gupeva, em sexta edição; além de Cantos à beira-mar, volume de poemas novamente disponível em publicação da Academia Ludovicence de Letras, de São Luís, organizada pela pesquisadora Dilercy Aragão Adler.

Data ainda de 2017 o volume crítico Maria Firmina dos Reis: uma missão de amor, também de autoria de Dilercy Aragão Adler, em que a pesquisadora divulga documentos até então inéditos, encontrados no Arquivo Público do Maranhão, dando conta da verdadeira data de nascimento da autora - 11 de março de 1822 - até então confundida com a data de seu batismo, que só ocorreria três anos mais tarde. O livro de Adler esclarece também a condição social de sua mãe, Leonor Felippa dos Reis, em verdade uma escrava alforriada que pertenceu ao Comendador Caetano José Teixeira. Tais descobertas esclarecem em definitivo dúvidas até então existentes sobre o nascimento da escritora e o estrato social a que pertenceu sua mãe.

segunda-feira, 16 de agosto de 2021

Trilha Antirracista / Literatura: TAMBÉM OS BRANCOS SABEM DANÇAR, de Kalaf Epalanga

“Também os brancos sabem dançar” nos faz entender o mundo ao som do Kuduro

O músico e escritor luso-angolano Kalaf Epalanga, em seu empolgante romance musical, nos conta sobre a cena da música eletrônica produzida por comunidades pobres através do mundo e disseminada, pelo fluxo migratório, principalmente na Europa

O Kuduro está para Portugal e os países lusófonos em geral, sobretudo Angola, mais ou menos como o funk carioca está para as comunidades do Brasil. O ritmo surgiu, pasmem, a partir de um trecho do filme “Kickboxer”, particularmente uma cena em que Jean Claude Van Damme dança de maneira um tanto incomum e desengonçada em um bar.

Tony Amado criou o gênero a partir de seus pads eletrônicos ao imaginar a dança do astro que, segundo ele, tinha a “bunda dura”. A piada virou febre mundial, derrubou barreiras e se alastrou pelo mundo. No Brasil, o ritmo virou abertura da novela Avenida Brasil, de 2012, onde o hit “Vem dançar Kuduro” se transformou no ingênuo “Vem dançar com tudo”.

Quem conta esta e outras tantas histórias a respeito do Kuduro, é o escritor e músico angolano Kalaf Epalanga, em seu romance musical “Também os brancos sabem dançar”. No livro, em linguagem fluida e divertida, ele fala, a partir de uma enrascada, quando se encontrou sem passaporte na fronteira entre a Suécia e a Noruega, sobre a cena da música eletrônica produzida por comunidades pobres através do mundo e disseminada, pelo fluxo migratório, principalmente na Europa.

Epalanga nos dá, como poucos, uma visão da amplidão e responsabilidade que os sequenciamentos eletrônicos, DJs e músicos especializados passaram a ter no intercâmbio entre artistas e países mundo afora.

Lançado há cerca de um ano, mas que ganhou maior projeção no Brasil graças à participação de seu autor na Flip deste ano, “Também os brancos sabem dançar” é repleto de detalhes e histórias. Serve como um guia para o ouvinte que pretende aprender, não só sobre o Kuduro, mas também sobre tendências que dominam as pistas, redes sociais e plataformas de música por demanda mundo afora.

Epalanga, junto com a sua banda Baraka Som Sistema, tem vários álbuns lançados e conta também com participações de diversos músicos do planeta, inclusive a brasileira Karol Conka, com quem gravou “Bota”, uma das faixas mais executadas da sua página no Spotify.

O que parece menos interessar ao autor, no entanto, é divulgar a sua banda, que está em recesso e ninguém sabe quando ou se volta. O músico, apaixonado por artistas do mundo, se mostra muito mais voltado a mostrar transformações surgidas através e pela música. No livro, por exemplo, é possível conhecer uma Lisboa muito além daquela cantada por nossos patrícios. Uma outra cidade incendiada pela música dos afrodescendentes, que ajudaram a transformar e modernizar a capital lusitana.

“Também os brancos sabem dançar” é um livro e tanto, que quebra paradigmas e preconceitos, nos abre de maneira generosa e apaixonada o universo da música eletrônica e nos ajuda a entender com muito mais clareza este bravo novo mundo.

Leia mais sobre esse livro:

- OLIVEIRA, Acauam. No Passinho do Kuduro. Disponível em: Quatro Cinco Um - A Revista dos Livros / https://bit.ly/3xFIzbL
- OLIVEIRA, Joana. Kalaf Epalanga, o estrangeiro que conquistou o mundo. Disponível em: brasil.elpais.com / https://bit.ly/3yOTjpJ
- EPALANGA, Kalaf. Kalaf Epalanga, Músico e Escritor. Disponível em: Goethe-Institute Brasilien / https://bit.ly/2VQK9Ln)
- DUARTE, Rafael. A língua é a primeira ferramenta de opressão. Disponível em: jornalistaslivres.org / https://bit.ly/3AGuo8c)

Vídeo-resenhas:

Entrevista com Kalaf Epalanga sobre seu livro

(Fonte: canal Litera Tamy - YouTube / https://bit.ly/2UdJgvi)

(Fonte: canal Ler e Ver - YouTube / https://bit.ly/3yNRAkt)

A origem do Kuduro e da Kizomba

(Fonte: canal Leia - YouTube / https://bit.ly/3sjlquH)

Kalaf Epalanga & Noemia Colonna @ African Book Festival Berlin 2021 (entrevista em inglês)

(Fonte: canal African Book Festival Berlin - YouTube / https://bit.ly/3lXAr4l)

Quem é Kalaf Epalanga?

Foto: Duarte Roriz
Kalaf Epalanga nasceu em Benguela, em 1978. É também conhecido como Kalaf Ângelo. Foi criado no seio de uma família de funcionários públicos. A música e os palcos sempre fizeram sentido na sua vida. A partir dos anos 90, quando em Portugal se começam a ouvir novas sonoridades e linguagens rítmicas, foi quando deu os primeiros passos na música. Em conjunto com João Barbosa funda o grupo Buraka Som Sistema, em 2006, que obtém grande sucesso até à atualidade. Participou como letrista no Festival da Canção 2007, com o tema Será Cedo, para as vozes de Melo D e Elaisa. Para além de músico também é escritor, tendo já publicado vários livros: Estórias de Amor para Meninos de Cor (2011) e O Angolano que comprou Lisboa (por metade do preço) (2014). Voltou ao Festival da Canção 2015 como co-letrista do tema Lisboa, Lisboa, numa parceria com Sara Tavares, para a voz de Rita Seidi. Tem colaborado frequentemente com Sara Tavares, entre outros artistas para os quais também é letrista. Mais recentemente, em 2017 publicou o livro Também Os Brancos Sabem Dançar, e é um dos maiores divulgadores da lusofonia nas suas várias vertentes no nosso país. [...].

(Fonte: EPALANGA, Kalaf. Kalaf Epalanga, Músico e Escritor. Disponível em: Goethe-Institute Brasilien / https://bit.ly/2VQK9Ln)

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